Pular para o conteúdo principal

Primeiro você

Uma das maiores bandeiras da campanha do Setembro Amarelo é a de estar atento ao outro.

Você escuta sobre como ficar atento para reconhecer os sinais de ideação suicida de pessoas próximas.
Sobre como oferecer ajuda a uma pessoa que deseja cometer suicídio.
Sobre a importância de fazer terapia, e sobre divulgar serviços de ajuda para que pessoas que precisam saibam onde procurar ajuda num momento de crise.

Por todo o mês, o foco é na atenção ao outro, e isso é lindo.
Mas, na minha visão, olhar só por esse ângulo é um erro perigosíssimo.

--

Prevenção ao suicídio não começa no cuidado com o outro: começa no cuidado consigo mesmo.

Até mesmo você, que se sente bem na maior parte dos dias, tem a vida tranquila e faz terapia semanalmente, pode tropeçar numa crise pesada e, subitamente, entrar numa espiral de pensamentos que pode levar ao suicídio.

Suicídio é mais questão de oportunidade do que de planejamento: você só está bem e fora de risco até o momento em que não está.

Aprenda, então, a reconhecer melhor suas emoções, o que te deixa frustrado, ao que você se apega demais e ao que você espera da vida.

Perceba cada pequena atitude autodestrutiva que você tem.
Pergunte-se o que o cigarro a mais que você tem fumado por dia, ou hora a mais que você tem passado no trabalho, ou a raiva leve e constante que passa quase despercebida estão dizendo sobre a sua vida.

Perceba seu desânimo e tente pensar em quais causas ele pode ter. O desânimo frequente pode ser uma semente pra uma depressão mais grave.

Perceba quando seu pensamento começa a orbitar muito ao redor de morte e doença. Pensamentos mórbidos podem ser um dos primeiros sinais de perigo.

Perceba, também, quanto tempo você passa extremamente preocupado com os outros. Se é muito frequente e com muita gente, essa atenção pode ser uma projeção de algo que está muito errado com você e que precisa justamente dessa atenção que você tem dispensado aos outros.

--

Por isso, por favor, tome cuidado consigo, ainda que nada pareça estar errado.
Não precisa ser paranóico, isso também não ajuda, mas tente criar um hábito de autoinspeção emocional e gestos de carinho com você mesmo.

É como quem faz uma revisão programada no carro: tudo pode estar correndo perfeitamente bem, mas é importantíssimo prevenir problemas pra não quebrar à toa no meio da estrada.

Trate-se como a estrutura delicada que você finge não ser.
Aí sim, volte o seu olhar ao outro: não apenas para ajudá-lo em momentos de crise, mas para ensiná-lo a criar essa rotina consigo mesmo também.

Assim, todo mundo fica vivo e a prevenção pode funcionar de verdade.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...