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Embalagens

Acordei de madrugada com um estrondo vindo da cozinha.
Natural pra quem tem bicho: o gato tinha derrubado a lixeira em busca de comida.

Quer dizer, não exatamente de comida, porque meu gato não sabe reconhecer alimentos.

Você dá um pouco de atum pra ele? Nem tchum. Joga um pedaço de carne? Quer nem saber.

Agora, esquece uma bandeja de isopor na lixeira pra ver a festa que ele faz. O bichano come a bandeja inteira e depois sai vomitando pela casa.

Nessa madrugada a bagunça foi por causa de um pacote que um dia foi um pacote de linguiça.

No lixeiro de orgânicos, imediatamente ao lado do que ele derrubou, tinha restos de linguiça à vontade, caso ele quisesse.

Senhoras e senhores, meu gato é fútil. Conteúdo não importa: ele quer a embalagem.

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Dizem que o bicho pega a personalidade do dono, e nesse caso é com razão. Eu, por exemplo, passei meu último dia de folga vendo videozinhos no YouTube.

Vi uns três vídeos de artesanato (que eu não faço), uns cinco falando sobre programas de TV (que eu não assisto) e até um tutorial de maquiagem (que eu não seria capaz de executar nem se minha vida dependesse disso).

Fiquei fascinado por um vídeo de ASMR com um cara fingindo que fazia exame neurológico em alguém que tinha caído um tombo. Meia hora do mais puro lero-lero desconexo inventado na hora.

Posso não ter aprendido muita coisa com esses vídeos, mas as pessoas eram tão simpáticas, falavam tão gostoso, e os assuntos eram tão leves, que o conteúdo não importava.

Até com meus melhores amigos, pessoas que eu considero muito inteligentes, é assim. A maior parte dos nossos papos é sobre bobagem.

Acho que a vida equilibrada está nisso: encontrar pessoas sábias o suficiente pra passar o dia contando piada de pum.

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Saber ser leve e divertido importa tanto quanto o conteúdo que a gente carrega.

Não dá pra viver de embalagem, mas ela importa sim. Ela ilustra o conteúdo de um jeito dê mais vontade de consumir o que está lá dentro.

Talvez por isso eu me irrite quando converso com alguém que está claramente fazendo tipo de inteligente: prefiro aquela inteligência que se deixa emoldurar por bobeiras bonitas e que vai além da seriedade sisuda de quem não sabe brincar.

Inteligência boa é aquela que escapa sem querer durante uma conversa leve. Aí sim, o conteúdo vem com carinho e é muito melhor recebido - até se for ruim.

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Como resumiu o brilhante cronista Branco Leone: "Se conteúdo fosse importante, eu não gostava tanto de bunda".

Talvez eu só esteja dizendo isso por falta de coisa melhor a contribuir.

Desculpem, é muito difícil pensar em coisas inteligentes enquanto se limpa o vômito de um gato que insiste em comer isopor.

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