Pular para o conteúdo principal

A TV não faz nada


Pais, podem parar de se preocupar com o que os seus filhos assistem. Depois de anos ouvindo sobre como a televisão manipula nossas cabeças, cheguei à conclusão de que a mídia não influencia em nada. Se influenciasse, não estaríamos numa situação tão crítica.

Não consigo entender como uma pessoa da minha geração possa ser reacionária. Nós fomos todos criados mais ou menos da mesma forma, ou seja, pela televisão.

Eram poucas as crianças dos anos noventa que não passavam oito horas por dia na frente da TV.
Uma TV bem limitada, por sinal: Globo, SBT, no máximo uma Manchete.


Falavam que isso ia estragar nossos cérebros, mas até que a televisão não era uma mãe ruim!

Ok, ela não nos impedia de correr atrás dos nossos irmãos com uma tesoura na mão, mas ela pelo menos recomendava uma tesoura sem ponta e a permissão de um adulto.

--

As lições eram boas:
Biologia? A fada Bela protegia o planeta. O Capitão Planeta lutava pelo meio ambiente.

Comportamento? Os Ursinhos Carinhosos ensinavam compaixão. Os Power Rangers ensinavam o poder da união.

Até educação sexual tinha: A Malhação ensinava a respeitar o coleguinha com HIV (o personagem pegava HIV após tropeçar e bater a cabeça na cabeça de uma outra pessoa que tinha o vírus, mas a qualidade científica a gente releva).

Mulheres Apaixonadas ensinou a respeitar os homossexuais. Mesmo os comerciais ajudavam:
"Use camisinha!"
"Drogas? Sou careta."
"Compre batom."

O Beakman divertia e ensinava a importância da ciência, tudo enquanto ostentava o melhor penteado da história do gel de cabelo.

--

Se passamos tanto tempo grudados na televisão vendo bons exemplos, o que pode ter acontecido de errado?

Se a gente cresceu assistindo ciência, de onde brotou tanto terraplanista?

Se a gente passou a infância ouvindo que era pra proteger o planeta, por que tantos não se incomodam com a destruição dos ecossistemas?

Se passamos tanto tempo aprendendo a respeitar o próximo, porque tanta gente insiste em dizer que respeito é mimimi?

Não, a mídia não foi má influência. Não foi nem influência.

O problema veio de alguma entidade muito maior e mais tóxica. O que tinha nas nossas casas além da televisão? Família.

Esse tanto de gente burra e má só pode ter vindo de lá.

A influência familiar é perigosíssima. Se possível, mantenham seus filhos longe dela.
É pelo bem deles.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...