Pular para o conteúdo principal

Contrações


Outro dia me explicaram que mulheres grávidas tem contrações de treinamento.

Desde meses antes do nascimento, os músculos começam a praticar as contrações e a ensaiar o parto.
Todo o movimento é feito sem que o processo siga em frente. A criança continua na barriga esperando a hora certa pra nascer - em geral, num dia em que os pais tem outro compromisso.


É como se o corpo, por conta própria, tentasse se preparar pra maratona que é espremer uma criança inteira canal vaginal afora.

[nota mental: montar um canal de TV feminista chamado Canal Vaginal]

--

Fiquei com essas contrações na cabeça, inclusive doeu bastante.


Mas olha: se em pleno dia nove de janeiro você já deixou de cumprir suas metas para o ano, já matou a academia e a dieta e agora se sente culpado por ter desperdiçado toda a empolgação que bateu no réveillon, calma.

Você não falhou: são só contrações de treinamento, elas são necessárias para que o bebê nasça.

Por isso me bate uma preguiça imensa quando aparece esse bando de especialista com filtro de Janeiro Branco na foto do perfil, pregando uma saúde mental inalcançável e elitista, ditando uma receita sobre como agir, passo-a-passo para que tudo fique bem.

Como se fosse possível ficar tudo bem, como se houvesse um jeito certo de agir.

As variáveis são tantas, com tanta coisa pra se digerir, que mudar de vida completamente de uma hora pra outra chega a ser violenta.

A mente também precisa de ensaio, precisa contrair sem fazer o parto, pra dar conta do impacto que é mudar um hábito pra sempre.

--

Talvez essa coisa de Janeiro Branco me irrite porque me lembre muito de cesariana. Avental, luva, bisturi, higiene, incubadora. Não gosto muito disso. Não é saudável mudar de fórceps.

Saúde mental é colorida. Vai e vem, sem muita receita, de um jeito que o corpo já intui como fazer quando deixado em paz.
É um processo natural, um parto na água. Com contrações de treinamento que doem meses antes da mudança acontecer. É fazer cocô sem querer enquanto empurra a criança. É o mamilo sangrando depois de tentar amamentar.

Saúde mental é bagunçada.
Não é branca nem é limpinha, mas é lindamente humana.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...