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A construção de um pesadelo


Quem tem gato sabe: três da manhã é a hora da revolução.
No instante em que os ponteiros do relógio atingem o três e o doze, os bichanos saem em disparada. Vorazes, eles tombam armários, derrubam vidros tomam todo o espaço da casa para si, como quem foge de um inimigo invisível com toda a força que tem.

Dizem os gatólogos que os os gatos, quando correm desse jeito, estão ensaiando para situações de perigo.

A casa é seu mundo, e eles precisam saber todas as possibilidades dele: para onde eu corro se eu for atacado por aqui? E por ali? Quando o perigo chegar, quanto tempo eu levo pra ir da porta de entrada até meu lugar de segurança atrás do armário?

Como uma CIPA felina, eles se preparam para saber agir quando o perigo chegar.

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Quem tem sono perturbado sabe: dificilmente enfrentamos nossos medos em um pesadelo.

Em geral, o pesadelo se passa no estágio anterior. A angústia do pesadelo é o congelamento na hora da luta, a falta de voz na hora da apresentação, a falta de ação na hora em que o horror acontece diante dos seus olhos.

Muito mais pesadelos se passam na impotência diante do conflito do que no conflito em si.

O pesadelo não é ser passar pelos problemas - é sentir-se incapaz diante deles.

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Talvez isso seja o que esquenta tanto os ânimos no período de quarentena: a sensação de nada poder fazer.

Durkheim, em seus ensaios sobre o suicídio, trazia a ideia de que uma pessoa suicida é uma pessoa que, desde antes do ato, já se sente morta.

Ficar parado em casa, sentindo a própria estabilidade financeira ruir, pode provocar a sensação de morte em muita gente.

A sensação de estar acoado diante de um vírus, que discretamente pode entrar na sua vida pra destruí-la, para muitos, também pode ser semelhante à morte.

O pesadelo, novamente, reside na sensação de nada se poder fazer.
Na incapacidade, na falta de opção, na censura aos próprios instintos.

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Paradoxalmente, não ter o que fazer carrega em si uma liberdade.

O mundo pode acabar, mas a única decisão que eu realmente posso fazer no momento é a de qual ração comprar para o meu gato (o mesmo que corre de madrugada).

Pode ser que minha reserva financeira acabe, mas eu ainda preciso regar minhas plantas, e elas ainda vão crescer bonitas, independente dos perigos do mundo.

Pode ser que o amanhã seja catastrófico, mas eu ainda tenho que viver o dia de hoje, e ele ainda pode ser belo.

Podemos nos sentir limitados, mas não estamos mortos. Muito pelo contrário. Ainda agimos, ainda que naquilo que é muito pequeno.

Ainda somos microcapazes. Microfelizes. Microvivos.
E o micro, num momento em que há muito pouco, pode bastar.

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Focar nas pequenas alegrias ajuda, mas não traz garantias de que passaremos pelos momentos difíceis sem ansiedade.
Em momentos como agora, a ansiedade é necessária. É útil, num momento de crise, pensar em todas as possibilidades que temos de escapar dos males que podem acontecer, como um gato que corre pela casa madrugada adentro.

Buscar equilibrar as grandes ansiedades e microfelicidades pode nos ajudar a dormir mais tranquilos, como um gato que, às oito horas da manhã, finalmente descansa.


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