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Adeus, Frigidaire

Acabei de cometer um assassinato aqui.

Fui inventar moda e matei minha geladeira: uma General Motors Frigidaire bonitinha, original do começo dos anos setenta.

Uma geladeira velha, que faz barulho como se fosse um gato no cio pilotando uma britadeira, mas que eu achava super especial. Ela tinha personalidade, sabe?

A porta já não fechava mais direito. Todo o gelo que sumiu da Antártida acumulava dentro dela em uma semana. De vez em quando ela descongelava sozinha e a casa amanhecia coberta de água.

O consumo de eletricidade de um mês, então, dava pra manter uma cidade pequena por três anos. Uma geladeira difícil de lidar, uma velha teimosa, mas com o coração bom, entende?

E ela já tinha sofrido muito na minha mão. Uma vez eu tentei "restaurar" ela com tinta esmalte e a coitada ficou parecendo que saiu de uma explosão na fábrica de piche.

Eu já tinha arrancado a porta do congelador dela porque ficava travando. A gaveta de legumes estava remendada com epóxi. As estantes desabavam sozinhas de vez em quando.

Mas ela estava lá, fria e longeva como a rainha da Inglaterra, e eu aqui, plebeu, insistindo em tê-la.

--

Acontece que em algum momento alguém fez manutenção na geladeira e colocou o motor do jeito errado, que ficava ocupando muito espaço atrás dela. Aqui em casa o espaço é apertado e eu quis me convencer que eu saberia colocar aquele motor de volta no lugar.

Homem é uma desgraça, acha que sabe tudo. Homem de quarentena, então... Eu já raspei meu cabelo, tentei pintar o chão de taco, montar estante sozinho, fiz muitas atividades pras quais eu não estava preparado nesses últimos dias, e deu tudo errado.

Pelo jeito, não foi suficiente.
Me sentindo o próprio MacGyver, peguei chave de fenda e alicate e fui mexer. Estava dando certo, estava tudo dando certo, como tudo costuma dar certo antes de uma tragédia, e a tragédia aconteceu.

Dei um tranco nela sem querer e todo o gás foi embora. O gás que ela respirou por cinquenta anos. Eu matei minha geladeira.

Uma geladeira que sobreviveu à ditadura! Uma geladeira que sobreviveu à guerra fria!
A guerra fria deve ser muito importante pra uma geladeira. E o fim dela? Morrer na mão de um desocupado que se deixou levar pela ambição.

O único defeito dela foi estar disponível demais pra mim. Tadinha.

Se alguém quiser o cadáver pra fazer um armário, uma banheira ou um caixão bem transado, eu dou.

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Eu ia terminar o texto prometendo que não ia mais tentar consertar nada na quarentena, mas não vou. Eu vi um vídeo ensinando a recapar sofá usando tecido e cola quente e deu vontade de arriscar.

Tomara que eu não me queime.

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