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Não Morra Hoje

Morre um ator conhecido e a carta de despedida é divulgada pela mídia.
Muitos sentimentos afloram em muitas pessoas particularmente vulneráveis. Vamos à redução de danos:

Trabalhando todos os dias com pessoas que pensam em se matar, já perdi a ilusão de que é possível convencer alguém em crise de que a vida é bela.

A parte mais pesada da carta deixada por Flávio Migliaccio, ator que nos deixou hoje, é que ela não contém nenhuma mentira. Ele diz que a humanidade não deu certo, que está decepcionado com o país e que sente que sua vida foi jogada fora, sentimentos que não são tão raros.

A depressão costuma ser muito sincera. Basta ter olhos pra ver o quanto existe de injustiça no mundo, basta ter coração pra perceber que não há objetivo óbvio na existência.

Não há o que discutir nesse âmbito: vivemos num mundo sofrido, de sentido vago, e isso é muito difícil.

Partindo disso, como prevenir um suicídio? Como dissuadir alguém que quer morrer, quando a angústia dela é tão solidamente pautada na realidade?

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Eu gosto muito de uma comediante chamada Joan Rivers, já falecida.

No final da vida acabou ficando mais conhecida pelas cirurgias plásticas do que pelas piadas, mas sua carreira foi brilhante.

Nos anos oitenta, por conta de uma série de decisões erradas do marido, que também era seu agente, Joan foi demitida de seu programa de televisão e foi banida de vários espaços na mídia. O marido, se sentindo culpado, cometeu suicídio.

Contou ela que, alguns meses depois da morte do marido, também decidiu morrer. Escreveu uma carta, preparou o testamento, deixou as coisas relativamente em ordem e estava prestes a ir ao ato quando seu cachorrinho pulou em seu colo.

Foi quando ela se deu conta que ninguém iria cuidar do cachorro, pelo menos por uns dias, até que achassem seu corpo. Ela não poderia deixar um cachorro com fome, não é mesmo? E não se matou.

Às vezes é mais fácil amar um cachorro do que a si mesmo. Que bom que eles existem.

Joan acabou deixando pra morrer outro dia, e então novamente para outro dia, até que em algum momento a vontade de morrer passou.

Depois daquela noite, ela criou uma fundação de suporte a famílias de pessoas que cometeram suicídio, sua carreira foi voltando a engrenar e ela morreu, ainda fazendo sucesso, aos oitenta e um anos.

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O que eu quero dizer com esse texto é que nem sempre a gente se salva do risco de suicídio por pensar nas coisas bonitas da vida, ou por ser convencido de que há um sentido maior na existência.

Muitas vezes, a gente só insiste em viver mais um pouquinho por causa do cachorro que pulou no nosso, ou pela técnica da NET que ligou oferecendo plano bem na hora em que a gente ia tomar os remédios.

Se você se comoveu com a carta deixada pelo Flávio Migliaccio, por favor, não se deixe levar pela comoção. Pelo menos não hoje. Deixe pra outro dia.

A melhor prevenção contra o suicídio é adiar a oportunidade dele acontecer. É deixar para morrer no dia seguinte. Talvez amanhã você consiga conviver melhor com a falta de sentido.

Se não amanhã, no dia seguinte. Ou no seguinte. Ou no seguinte seguinte seguinte.

Na maior parte das vezes, essa vontade de morrer vai embora. Não vai surgir um sentido lindo para tudo, o mundo não vai ter menos sofrimento, mas vai ficando um pouco mais suportável viver.

E viver pode ser uma experiência até interessantezinha, sabe?

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Por isso, se um suicídio tão público e com uma carta tão contundente mexeu contigo - com quem é que não mexeu? - tente não tomar uma decisão agora.

É um argumento bobo, mas se você não morrer hoje, pode tomar a decisão de morrer amanhã. O inverso não é possível.

Procure ajuda, ligue para o 188, marque um psicólogo, faça qualquer coisa que te distraia do sofrimento intenso do momento atual, mas não morra hoje. Por favor, tente adiar a sua decisão.
É muito possível que mais tarde ela mude.


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