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Numinosidade




Fim de noite e fui fazer caminhada - caminhar sozinho por ruas escuras é uma pessima ideia que eu tenho com bastante frequência. 

Atento aos perigos urbanos, comecei a receber sinais. A música no fone de ouvido falava sobre vento. Por coincidência, eu comecei a sentir a força dos ventos batendo em mim. Sorri e segui caminhando.

A próxima música tinha trovões na letra, e eu comecei a reparar nos trovões que havia no céu, cada vez mais frequentes. Estranho. 

Olhei a previsão do tempo no celular e a chance de chuva para aquele horário era de 0%. Seguro de mim, segui com a caminhada.

A música seguinte era Rain On Me, da Lady Gaga. 

OK, UNIVERSO, JÁ ENTENDI.

Os recados eram muito explícitos para ignorar: repara no vento, menino, olha os trovões, ouve esse agudo da Ariana Grande, vai chover!

Girei em 180º e comecei a caminhar na direção da minha casa, mas não deu tempo. Bum, o céu se abriu numa tempestade torrencial e não tinha mais como caminhar direito. 

Tomei um banho de chuva de fazer inveja à Vanessa da Mata e nem posso dizer que ninguém me avisou do perigo.

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Numinosidade: o nome que se dá para a sensação de que algum fenômeno sagrado, sobrenatural ou misterioso está acontecendo.

Sincronicidade: coincidências repletas de significado, não conectadas por causalidade mas sim por sentido. 

Duas palavras muito usadas por psicoterapeutas junguianos pra dizer, de um jeito refinado, que alguma parada é mucho loca, coisas sem explicação mas que parecem fazer sentido. 

Nada necessariamente esotérico: os eventos não precisam carregar significado em si, o nosso olhar basta para engrandecê-los.

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Enxergar sentido nas coincidências da vida me parece o jeito mais poético de se viver. Tem coisa mais bonita do que prever que a chuva vem só pelo que a música que se ouve diz? Tem coisa mais bonita que ver sinais?

E daí que foi tudo fruto do algoritmo do aplicativo de música? O universo e a Lady Gaga conversam comigo por caminhos misteriosos.

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A armadilha é que eu acabo me empolgando nas interpretações e, quando percebo, estou achando qualquer experiência da vida como numinosa - e se tudo na vida é um grande recado espiritual, nada é.

Isso tem nome também: apofenia, o fenômeno cognitivo de encontrar padrões e derivar conclusões de dados que não tem nada a ver um com o outro. Papo demais com o universo e papo de menos com a razão.

Pra ir disso pra paranoia basta um salto pequeno, de tamanco da Xuxa, e é importante saber quando parar. Coincidências, às vezes, são só charutos.

Pelo menos quero acreditar nisso, porque quando eu cheguei em casa depois do banho de chuva, vi que meu celular tava desbloqueado no bolso e fez sozinho todas essas buscas da imagem. Oioioi, vale das sombras da morte!

O prato é cheio pra interpretações intensas mas eu vou pular essa refeição. Ainda que eu ande pelo vale das sombras da morte, vou prestar atenção no que diz a música e mentir pra mim que estou seguro.

E, só pra dar um pouco de espaço pra razão, vou carregar um guarda-chuva comigo.

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