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Nutrição de afeto

Saiu um artigo na The Atlantic há alguns meses (e eu só terminei de ler outro dia, porque minha capacidade de manter o foco tá do tamanho de uma cabeça de alfinete) sobre um grupo de órfãos na Romênia. 

A história é mais ou menos essa: no começo dos anos 90, o governo romeno acreditou que aumentar a população ajudaria a criar um boom econômico, então começou a incentivar as famílias a terem muitos filhos. Sem grana ou tempo para criar os filhos? Sem problemas, o governo criaria seu filho pra você. 

Pra isso, o governo criou grandes lares conjuntos para crianças, em que elas recebiam comida (só uma ração, não muito elaborada) e moradia (mas sem conforto algum). Não recebiam, entretanto, nenhuma forma de carinho. Não ocorreu a ninguém na elaboração desse projeto que essas crianças talvez precisassem, sei lá, de um chameguinho.

Sem surpresa alguma, o experimento deu muito errado: as crianças tiveram déficits cognitivos severos e uma grande dificuldade de criar vínculos afetivos. A matéria inteira é de partir o coração.

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Depois de uma troca de governo, alguns psicólogos foram chamados à Romênia para tentar ao menos recuperar um pouco do estrago feito com aquelas crianças. 

Os profissionais ficaram chocados com a ausência de afeto direcionado a essas crianças e começaram a direcioná-las para famílias adotivas, que tiveram muitos obstáculos em ensinar essas crianças a receber amor. 

É muito difícil aprender a ser amado quando nunca se foi. 

A pergunta trazida pela matéria era justamente essa: é possível recuperar afetivamente alguém que nunca recebeu carinho?

Vou deixar o link nos comentários pra quem quiser ler, chorar bastante e chegar às próprias conclusões.

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A história dessas crianças não saiu mais da minha cabeça. Sempre fui um grande crente no potencial do investimento afetivo para a transformação de uma pessoa. 

Perceber isso foi um grande alívio pra mim, diante da impotência diária do trabalho de um terapeuta: dar carinho é muito mais importante do que dar soluções.

Abastecida de carinho, uma pessoa é forte o suficiente pra solucionar o que quer que precise.

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Por mais importante que seja um investimento amoroso inicial, duvido muito que uma grande dose de amor na infância seja garantia de saúde emocional pra sempre.

Quer dizer, leite materno é muito bom, mas se você desmamar e fizer jejum pro resto da vida... esse resto de vida não vai ser muito longo. 

Vendo a matéria da The Atlantic, fiquei querendo perguntar: Será que uma pessoa adulta que é privada de carinho também definha emocionalmente?

Aí, pensando em pessoas abandonadas em asilos, ou muito abusadas emocionalmente, ou de alguma outra forma condenadas à solidão, sinto que posso dizer: sim. 

Desmamar alguém de amor, em qualquer fase da vida, pode ser fatal. 

Podemos crescer o quanto for, mas sempre seremos dependentes de um pouquinho de afeto. Sempre vamos nos beneficiar de uma dose saudável de toque, de chameguinho, de cafuné. 

Do conforto macio de sentir que alguém se preocupa. 

De ouvir "eu te amo".

De sentir que vai ser amado independente de ter dado certo ou não naquilo que se propôs a fazer.

Como aquelas crianças romenas, nos desenvolveríamos muito melhor em uma vida mais carinhosa, com mais afeto recebido e também passado adiante.

Como disse Freud, "como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada".

Já que essa segurança não dura pra sempre, eu acrescentaria: "como permanece forte uma pessoa que se nutre diariamente de um pouco de carinho".  É um elemento essencial para a vida.

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