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Canceladíssimo



Acho que muita gente nem ficou sabendo, mas ano passado eu fui meio que cancelado. Muito chique, né?

A história é a seguinte: pra divulgar os atendimentos online na pandemia, fizemos um vídeo com uma paródia de música. Como quem escreveu a paródia fui eu e eu tenho zero noção, tinha uns "cu" enfiados no meio. Apelação, ok, mas eu achei engraçado e o pessoal precisava atender de alguma forma.

Gente do céu, a resposta não foi o que eu esperava. Um grupo de psicólogos se revoltou MUITO. 

Não no nível de sempre, de me xingar nos comentários, mas num nível extra, de criar grupos com centenas de pessoas no WhatsApp pra falar mal de mim, de desenterrar fotos minhas antigas pra xingar, de pedirem minha cassação imediata. Diziam desde que eu era uma vergonha para a profissão até que eu devia morrer... 

Profissionais do acolhimento, não é mesmo?

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O vídeo não ficou no ar por uma hora completa que fosse, mas o que seguiram depois foram semanas de inferno. Eu tinha vergonha de olhar qualquer colega na cara.

Fiquei só 98% convencido de que tinha feito algo horrível mesmo, que talvez essa profissão não fosse a ideal pra mim. Tive vontade de morrer, achei que nada do que eu produzisse tivesse valor de verdade, ressuscitei uma porrada de traumas do passado.

Por sorte, um número legal de pessoas entendeu bem a proposta e entrou em contato querendo atendimento por causa daquilo, porque senão eu teria ficado cem por cento arrasado. 

Me afastei das redes sociais por um tempo - apesar de meu trabalho depender muito disso. Perdi a inspiração e o tesão de seguir fazendo o que eu fazia... 

Independente do que eu tenha feito (e hoje eu consigo olhar pra trás com a certeza de que não fiz nada demais), aprendi bem o quanto é importante cuidar da medida na hora de gongar alguém, por mais justo que isso possa parecer.

Credo, o sangue ferveu só de contar a história.

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Dos estágios que eu fiz na época da faculdade, o mais importante foi no Ministério Público, trabalhando com execução penal. 

Entrar em contato com pessoas privadas de liberdade me fez entender que todo mundo tem suas motivações pra levar a vida que leva, e que em quase toda história de violência existia algum cantinho de boa intenção.

Foi meu primeiro contato com qualquer tipo de militância, esse de aprender que as pessoas tem o direito ao perdão, que toda punição deve ser pedagógico e que existe a possibilidade de mesmo alguém que sempre viveu no crime se reabilitar.

Por isso é tão estranho pra mim ver gente inteligente querendo destruir a carreira de uma pessoa depois de uma cagada.

Sim, existem cagadas e cagadas, algumas muito difíceis de perdoar, mas de onde vem o pensamento que punir alguém eternamente vai ser uma maneira boa de transformar o mundo pra melhor?

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Estamos adoecidos da nossa incapacidade de deixar pra lá. 

Não digo nem perdoar, esse ato tão difícil e brega, mas simplesmente deixar algo pra lá e aceitar que as pessoas tem o direito de continuar se manifestando ainda que eu não goste delas.

Sim, desculpem, nessa altura eu já estou falando de Big Brother. Tem uma pessoa lá agindo de um jeito péssimo, extremamente reprovável? Tem. Mas como a gente pode esperar que uma pessoa com atitudes ruins continue vivendo se a gente continuar a definí-la por isso e carregar uma mágoa pra sempre? 

Isso só serve pra empurrar uma pessoa pro suicídio. 

Eu sei, já estive quase lá.

Como psicólogo, se não for pra acreditar que uma pessoa pode se reinventar quando confrontada com a sua sombra, devo aceitar que minha profissão não serve pra nada.

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Enfim, ainda estou por aqui. Tentando encontrar um jeito de me comunicar com as pessoas que não ofenda tanto, mas que ainda faça sentido pra mim.

Perdi um pouco a mão pra escrever, pelo menos do jeito que estava fazendo antes. Não me sinto mais tão atraído pelo circo de produzir conteúdo o tempo todo, e gravar vídeo, e fazer meme num desespero pra manter a relevância profissional.

Nesse tempo, fui inventando outras coisas pra fazer. Mudei alguns hábitos. 

Estou lavando a louça logo que termino de comer! 

Estou penteando meu cabelo pro outro lado! 

Escrevi um filme! Que vai ser filmado de verdade, com câmeras e tudo!

Fiz botox na testa! Diminuí meu consumo de leite!

E, entre coisas maiores e menores, vou tocando minha vidinha e percebendo que dá pra sobreviver a um cancelamento, seja lá o que isso for.


Que bom que tive essa chance.

Comentários

  1. Monique9:15 AM

    Eu lembro que uma vez eu comentei com vc que nunca faria alguns comentários que vc faz publicamente com medo da reação e vc defendeu o direito de falar de uma forma que eu invejei sua coragem e seus princípios. Seus princípios e sua coragem valem mais do que os dessas pessoas que ficam caçando briga na internet. Eu continuo te invejando.

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