Pular para o conteúdo principal

Como fabricar um ambiente tóxico


Segunda vez que eu escrevo sobre Big Brother, e olha que esse ano eu não tô nem assistindo. Tô só consumindo pelo ar, como o conteúdo inevitável que ele é.
Pra quem não acompanha: algumas pessoas da casa agiram de forma bem abusiva com outros participantes e o público já está acendendo a fogueira pra queimar esse povo vivo. 
Vá lá, programa é feito pra elevar as emoções mesmo. 
O que me surpreende de verdade é a quantidade de comentários do tipo "Que gente horrível, eu jamais seria assim se estivesse lá".
Muitos espectadores parecem partilhar da profunda certeza de que, numa situação como aquela, agiriam como um bastião da moral e não cometeriam os mesmos erros de julgamento dos participantes da casa.
Tenho minhas dúvidas.
--
Primeiro porque tem uns bons empurrõezinhos para bagunçar a cabeça de quem está lá dentro.
Se você considera, por exemplo, que -- de acordo com algumas notícias -- os participantes são impedidos de tomar remédios ansiolíticos e antidepressivos (mesmo que a produção tenha plena noção do histórico de saúde mental de cada um), que há muito incentivo do uso de bebida alcoólica, que há todo um elemento de competição, que há o estresse de confinamento e da exposição total... não há cristão que não enlouqueça.
Trata-se de um ambiente inóspito de propósito, com participantes vulneráveis de propósito, com o objetivo de gerar de conflito possível de propósito, pra gerar audiência.
O comportamento tóxico vem da concepção do programa e repercute, de diferentes maneiras, em cada membro da casa. 
Se você abrisse uma empresa e tratasse mal seus funcionários -- nunca vi nenhuma empresa fazer isso, imagina, é só uma hipótese -- criando um clima de competição e agressividade, em pouco tempo seria impossível trabalhar lá e em pouco tempo isso renderia um processo no que restou da Justiça do Trabalho. 
Ambientes ruins estressam e o estresse nos faz agir de maneiras imprevisíveis. Isso quando não nos mata.
--
O comportamento de um membro é um sintoma do que acontece no grupo todo.
Uma criança com problemas de comportamento, por exemplo, pode estar simplesmente processando em si os conflitos que sua família vive. Somos muito mais influenciados pelos elementos ao nosso redor do que pensamos. 
(Aliás, esse é um dos motivos pelos quais eu não tenho conseguido acompanhar o programa -- não fiz anos de terapia pra lidar com a minha família disfuncional pra gastar minha pouca energia assistindo os moradores de uma casa discutindo na televisão.
Sou mais eficiente e gasto minha energia vendo gente falar dessas pessoas no Twitter.)
--
Mais um elemento importante: 
Pessoas que se sentem no poder de polícia começam a agir de modo cruel com aqueles que são julgados como culpados e errados. 
Em 1971, cientistas da Stanford colocaram pessoas em uma prisão falsa foi construída, separando grupos de prisioneiros e guardas, e o grupo foi filmado 24 horas por dia. 
Simplesmente a existência dessa dinâmica de punidores e punidos foi suficiente para que o estudo precisasse ser interrompido precocemente. Em seis dias os comportamentos dos guardas já estavam próximos da tortura. Numa prisão de mentirinha!
É bem a dinâmica que existe nessa edição do BBB: algumas pessoas se elegeram justiceiras, escolheram os elementos que representavam o lado errado e, em pouquíssimos dias, já apresentavam elementos de tortura psicológica em suas atitudes.
Toda dinâmica de poder em que alguém ocupa plenamente o papel de justiceiro gera violência. É nessa dinâmica que se apoiam as igrejas, é assim que se forma nossa política de encarceramento em massa, e é assim que uma população armada termina em merda.
A maior tolice que uma pessoa pode ter é não considerar a possibilidade de seu ponto de vista estar errado. 
Todos, mais frequentemente do que gostaríamos, erramos.
--
Agora eu vou fazer o comentário clichê de que qualquer grupo de pessoas confinadas representa a sociedade que existe fora do confinamento. We live in a society, não é mêsss?
Enfrentamos uma fase de polícia de comportamento ferrenha e agressivíssima.
O problema se revela nos indivíduos mas faz parte de um ambiente muito maior e com muitos estímulos para que o clima seja mais do que tóxico, venenoso mesmo. Mas e aí, como escapar dessa dinâmica mesmo cercados por um ambiente tóxico assim? Como evitar ser a Karol Conká do nosso quintal?
Imagino que só na base de muito tchaqui tchaqui tchaqui tchá.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Zombeteiro

Nada é mais cafona em pleno ano de 2025 do que querer um sentido pra vida. Eu não devia falar isso em voz alta, porque meu emprego literalmente é fazer as pessoas acreditarem que algum sentido deve existir e aí passar duzentas sessões correndo atrás disso.  É uma profissão que, para os ingênuos, é muito bonita e faz muito sentido.  Bobagem. Eu gosto de ser terapeuta e acredito de verdade que algum bem eu devo fazer pros meus pacientes, mas esperar sentido disso? Cafona.  O sentido de qualquer trabalho é sair do trabalho e não fazer nada. -- A vida mais sem sentido talvez seja a com mais sentido: ficar aqui por um tempo, trabalhar um tanto, comer algumas coisas gostosas e ocasionalmente passar a mão num gato. Depois, pendurar as chuteiras, sem culpa nenhuma, e dormir pra sempre.  É o verdadeiro paraíso.  Nunca pensei "que ódio, vou tirar uma sonequinha depois do almoço" ou acordei pensando "que experiência horrível essa de me desacoplar da vida por uns minutinhos...