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Tina Turner e o coveiro

Está pra sair um documentário sobre a vida da Tina Turner - jovens, uns trinta anos atrás ela era mais ou menos o que a Beyoncé é hoje - e me espantei com uma frase dela no material de divulgação. Ela diz: 

"Não tive uma boa vida. A parte boa não equilibrou a ruim. Foi uma vida abusiva, não há outro jeito de contar essa história. É a realidade. É uma verdade. É o que tem, e você precisa aceitar isso".

Surpreendente ouvir isso de uma pessoa que fez tanto sucesso e ganhou tanto dinheiro, até prestarmos mais atenção na história de vida dela: infância na pobreza, violência doméstica, problemas graves de saúde, o suicídio de um filho...

Realmente, não há sucesso no mundo que compense uma vida de pirambeira.

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Isso me lembrou de uma outra entrevista, que li outro dia na página SP Invisível, com Reginaldo de Oliveira, um homem de 50 anos que trabalha como sepultador em um cemitério de São Paulo, falando sobre o seu trabalho durante a pandemia. 

Disse ele, refletindo sobre a sua própria vida:

“Não realizei sonho nenhum, nunca tive casa própria, carro, nada. Só comi e vivi."

Outro extremo da vida, outro soco no estômago.

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Tenho guardada uma foto da minha avó por parte de pai de quando ela tinha 27 anos de idade. 

Ela não parece ter, na foto, a idade que tinha. Diria que ela está mais parecida com a pessoa que ela foi aos setenta anos do que com a que foi aos vinte.

Também na pobreza extrema, ela tinha acabado de perder dois filhos pequenos (que morreram de crupe, que hoje seria facilmente tratada com antibiótico). A marca do sofrimento ficou estampada no seu humor, no seu cotidiano, no seu rosto.

Se ela estivesse por aqui para eu perguntar se a sua vida foi feliz, provavelmente a sua resposta seria muito parecida com a de Tina ou Reginaldo.

No máximo alguns momentos um pouco alegres em uma vida de muito sofrimento.

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A esperança é um fenômeno da juventude que a vida parece fazer questão de corroer. 

No resto da matéria que vi, Tina Turner falava sobre como hoje ela é casada com homem gentil e afetuoso, um bálsamo depois de anos de abuso. Nada que compense o sofrimento, mas pelo menos uma experiência tardia de carinho.

Minha avó também parece ter encontrado alguma paz nos últimos anos de vida, passando os dias cuidando dos netos e da sua horta.  

O Sr. Reginaldo, o coveiro, não sei o que faz para digerir a rotina pesada que leva. Espero que encontre algo, ainda que também pequeno, para poder viver ao menos um pouco de paz.

Talvez essa seja a única esperança honesta: encontrar algo que nos encante o suficiente nos breves momentos entre uma pancada e outra. Pode ser pouco, mas já é suficiente pra dar algum sentido à experiência difícil de viver.

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Mesmo com todo o sofrimento, não imagino que Tina, Reginaldo ou a minha avó tenham se arrependido de viver. A felicidade plena não é alcançável, por mais que seja propagandeada o tempo todo como algo que precisamos encontrar. 

Pode ser difícil digerir a desesperança que isso traz, mas pelo menos podemos descansar da culpa de não estarmos tão alegres assim. Qualquer alívio é bem-vindo.


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