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Últimas Palavras



Eu tenho várias invejas do Contardo Calligaris, o psicanalista que faleceu essa semana, a maior parte delas a respeito de coisas que ele escreveu.


Mas a maior inveja que fica veio pela última frase que ele disse, logo antes de morrer.

"Espero estar à altura", foi o petardo de Contardo, dando tchau pra existência humana.


Que grau de consciência uma pessoa precisa ter pra estar diante da morte e ainda conseguir soltar uma pérola dessas?

Gênio.


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Em 2018, quando morrer não estava tão na moda quanto hoje, faleceu uma grande amiga-mentora-segunda-mãe. O dia da partida dela me marcou muito: ela estava há alguns dias internada na UTI, com uma infecção resistente aos antibióticos.


Estava no trabalho e senti uma forte vontade de ir até o hospital. Não era o meu dia na escala de visitantes e a entrada era bem limitada, não faria sentido ir.


Mas não consegui brigar com a vontade. Desmarquei meus pacientes do dia e peguei o primeiro ônibus.

No caminho, a razão me venceu. Seria loucura demais fazer isso só por conta de uma intuição. Desisti e fui pra casa.


Logo que cheguei recebi a mensagem no celular: "A Cleia descansou".


Cansada de tantos dias na UTI, ela recusou ser entubada novamente quando este era o último recurso.

Que merda. Eu devia ter ido. Eu poderia ter presenciado a coragem de ir tão conscientemente quanto ela foi.


Talvez tivesse escutado uma frase tão genial quanto a do Contardo. Talvez eu dissesse um último "amo você".


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No ritmo que essa pandemia tem tomado, é seguro dizer que nem todos de nós vamos chegar vivos no final desse ano.


Só por matemática: se esse texto chegar aos mil likes, é bem provável que pelo menos um leitor não chegue até o natal. Ou talvez os leitores sobrevivam e quem vá seja eu.


Quem será o premiado? Será que eu peço pra cada pessoa marcar três amigos e no final do ano a gente faz um sorteio?


--


Vi um TikTok de uma moça com um tumor no cérebro explicando que quer todo mundo de cor-de-rosa no seu funeral. Tá certa ela, pensar em como a gente quer morrer não precisa ser mórbido.


Já estamos vivendo uma situação tão absurda, tão mórbida, que enfrentar a presença da morte é a única opção que nos resta. Por que não pensar no que ainda dá pra fazer caso nosso tempo acabe logo? Mais: o que fazer agora que faça a vida ter mais sentido caso tenhamos a sorte de seguir em frente?


Melhor sofrer com a consciência da morte do que morrer na ignorância. Antecipando bem, dá até pra pensar numa frase boa pra falar no final.


A minha eu já decidi: "Tem uma coisa que vocês precisam saber...", e não completar com nada.

Os vivos que se mordam.

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