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De saída

Nenhuma tarefa corre tão perto do desastre quanto arrumar uma criança pra ir pra aula. 

Talvez praticar sapateado na beira de um cânion ou fazer cirurgia cardíaca de emergência numa sala escura, mas nem o cânion nem o paciente estão correndo de um lado pro outro com as mãos cobertas de geleia enquanto você tenta fazer o que precisa.

A mãe passa os olhos cuidadosamente na criança antes de sair de casa. Faz um pequeno checklist: a camiseta está limpa? A bermudinha está para fora e a cueca pra dentro, ao contrário do outro dia em que estavam quase entrando no ônibus quando ela percebeu que inverteu as etapas na correria?

Sim, tudo em ordem.

"Fica aqui que eu vou pegar seu lanche. Não se mexe!", diz ela. O filho aperta uma perna contra a outra, desconfortável.

"Você tá xixi?", a mãe pergunta. É hora de sair de casa, não de falar corretamente.

"Eu quero água", ele responde, como se balançar as pernas e segurar a virilha com a mão fossem sintomas naturais de sede. 

Ela arruma o redemoinho do cabelo do filho com uma das mãos, enquanto a outra se estica o máximo que pode pra pegar um copo meio cheio de água de sabe-se lá quando que estava em cima da pia.

O filho bebe a água segurando o copo com as duas mãos, consciente do perigo daquele movimento. Uma distração e todo o trabalho da última hora seria em vão e os dois estariam de volta à estaca zero de achar uma roupa seca e limpa.

A mãe pega o copo vazio.

"Tá bem agora?", pergunta ela, enfiando uma banana meio verde na lancheira. Ele sempre troca o lanche com algum colega, mesmo.

"Quero xixi", o filho responde, sabendo que a mãe acha tão fofo quando ele fala assim que quase se esquece do atraso iminente. 

Ok, uma etapa extra. Rapidinho dá. 

A mãe corre com a criança pro banheiro e abaixa-bermudinha-tira-o-pingolim-mira-dentro-do-vaso-não-fica-brincando-menino-seca-com-papel-e-lava-a-mão-direito.

Ela também precisa ir ao banheiro, mas deixa pra depois. Aguenta até chegar no trabalho. Bom, talvez demore um pouco porque vai ter cliente esperando, mas com sorte ela faz esse xixi antes das cinco da tarde e evita uma infecção urinária. 

Voltam pra cozinha. Ela pega a mochila, pega a lancheira, pega as chaves de casa. Última conferidinha antes de saírem, ela pergunta ao filho:

"Estamos saindo, tá bem?"

"Tudo bem", ele diz, e os dois estariam de saída se ele terminasse por aí. Mas não, ele continua parado e fala para a mãe: 

"E você, tá bem?"

Ela congela.

Talvez fosse reflexo da a falta de sono na noite anterior ou o jeito que ele perguntou franzindo a testinha,  preocupado de verdade, mas algo nela parece travar.

Só volta a si quando repara uma lágrima já na altura da bochecha, daquele choro de supetão, do tipo que só é descoberto quando o terço inferior do rosto encharca.

Há quanto tempo ela não ouve essa pergunta, enquanto avança violentamente na lista de tarefas de cada dia? 

"Tem como essa resposta ser positiva se eu preciso de tanto esforço pra tentar responder?", pensa. 

Ela faz uma conferência mental como quem confere se uma criança não esqueceu nada antes de ir pra escola: "Tem gente morrendo às pencas, né? E o governo, a economia, as contas, tem onde botar mais caos? Tem como estar bem?"

Ela olha para o relógio, já fazendo as pazes com o atraso. Continua o checklist mental: "Pensando bem, a criança está com o uniforme limpo, com comida na lancheira, olhando pra mim, franzindo a testa, querendo saber com a preocupação pequenininha de criança se eu estou bem..."

Ela se agacha e abraça apertado aquela criatura 50% bochecha com o maior dos carinhos do mundo. Sorri.

"Tô sim", responde. "Agora vamos?"

Os dois caminham para o ponto de ônibus. Embarcando, ela percebe a camiseta do filho suja de geleia, mas não se preocupa.

Ela precisa muito fazer xixi.

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