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Zé Gotinha X Sommeliers



Quando eu era jovem, lá pelo primeiro ano de pandemia, era chiquérrimo estar vacinado. Não importava a origem, meus amigos estavam fazendo fila pra participar de estudo clínico sem nem perguntar o nome da fabricante.


Mais tarde, com mais opções chegando aos postos de saúde, começou o Concurso Miss Vacina 2021, e todo mundo é um jurado.


"Essa eu me recuso a tomar!"

"Essa aqui que é a boa!"


E por mais que eu adore jogar ovo em negacionista, vejo algumas brechas a explorar que ajudariam a corrigir esse equívoco.


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Eu sei, eu sei, informação não falta. Tá cheio de gente explicando de graça na internet, mas em algum ponto a informação precisa ser política pública, e do jeito mais simples possível.


Não é todo mundo que se diverte lendo estudo clínico de vacina e escutando podcast de cientista falando de proteína (eu, particularmente, adoro, entendo uns 5% do que falam), então é importante passar informações que respondam às emoções das pessoas.


Por mais negacionista que exista por aí, temos mais de meio milhão de mortos. As pessoas estão assustadas e procuram segurança.


É nessa hora que a desinformação impera. Uma pessoa que não entende imunização coletiva não vai querer tomar uma vacina com eficácia menor, por mais que ela não saiba direito como direito o que é essa eficácia.


O que fazer nesse momento?

Eu começaria por acolher a insegurança, explicando, do jeito mais sucinto possível, que a prioridade no momento é que o máximo de pessoas tenham alguma vacina, qualquer que seja, no braço, ao mesmo tempo garantindo às pessoas que não serão abandonadas no caso de sua vacina não ser a melhor possível.


Explicando que elas vão receber a melhor proteção possível mais pra frente, caso seja necessária uma dose de reforço ou um outro imunizante.


Se a população sente que só tem uma chance de se proteger, ela tende a escolher estratégias individualistas - que é justo o que precisamos evitar no momento.


Talvez isso funcionasse ainda melhor colocando quem se recusa a tomar a vacina Quytenhoggi no final da fila da vacinação. Enquanto isso, avança a fila para os próximos interessados, que vão celebrar a vacina que tomam e ajudar a construir uma narrativa mais positiva ao redor dela.


Nada como um pouquinho de psicologia pra botar ordem na baderna.


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[isso me faz lembrar de como a gente poderia ter discutido critérios de risco controlado para pequenos encontros lá atrás, como método de prevenção de danos, antes que a população coletivamente se cansasse e saísse limpando maçaneta de shopping com a língua. enfim, leite derramado, snif snif.]


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Agora, saindo do papel de psicólogo, eu acharia o máximo usar uns truques mais baratos.


A gente eliminaria uma boa parte dos sommeliers de vacina se a Coronavac acompanhasse uma nécessaire, por exemplo. Classe média adora um brinde.


"Senhora, aqui tem Pfizer sim, mas também tem essa vacina sem marca, que a gente fez aqui nos fundos do postinho usando água sanitária e dipirona... e essa vem com uma bolinha antiestresse!"


Eu escolheria a da bolinha sem titubear.


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Outra possibilidade: se a pessoa falar que duvida da eficácia da vacina que tiver no posto, a enfermeira pode responder: "É, com velho não funciona mesmo..."

A pessoa vai tomar só pra provar que é xófen. Vaidade é a nossa energia.


Também dá pra partir pro rebranding total, com comercial na TV igual aos da CAOA Chery:

"Chegou ao Brasil a Sinovac Premium, com exclusivo sistema Efficacy Plus de imunização extra-potente!"

Vai fazer fila.


Se não, a gente apela ao bom e velho Zé Gotinha.

Não há pessoa de bom coração que resista ao charme de uma gota antropomorfizada e um pirulito.

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