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Na prancheta


Imagina o dia que um cientista responsa, daqueles que usam óculos e jaleco, resolver se dedicar a estudar um sentimento.

Talvez ele quisesse entender como uma emoção é capaz de nos levar tão rápido, como se caíssemos num poço de quilômetros de profundidade, pra um outro lugar no tempo.

Ele estudaria isso como um fenômeno científico e frio, sem absolutamente nenhum envolvimento emocional. Pode confiar, ele tem uma prancheta. 

Com a prancheta na mão, o cientista se aproximaria de seu objeto de estudo: você, que nem desconfia de nada.

Do outro lado da janela da sua casa, ele lhe observa sentado no sofá, distraído pela rotina do dia, quando seu olhar repousa sobre o móvel da TV.

"É agora", o cientista pensa, e você cai num buraco negro. 


Como num flash, você é uma criança novamente, e está encarando o móvel da sala da casa dos seus pais. Milhares de terabytes de memórias são descompactados num instante e é como se nem um segundo tivesse se passado.

A ranhura da madeira do móvel está ali, gravada intacta no seu pensamento. Também está lá o quebradinho da porta, feito sem querer numa brincadeira mal sucedida, junto com a lembrança da bronca que você levou por quase ter derrubado os aparelhos de som que brilhavam na estante, conquista e orgulho máximo do seu pai.

Você olha para o lado e vê sua mãe dançando pela sala - era o exercício que ela sempre gostou de fazer, e parecia ser o único momento em que havia vida nos olhos dela. Você sorri.

O cientista anota algo, indiferente.


Você lembra do seu pai chegando com um presente na mão, embalado em papel dourado, e da sua mãe feliz de ganhar um CD novo - um investimento importante para a época. Você recorda a sequência exata das músicas daquele disco que tanto se repetiu, e lembra que nem todas elas eram dançantes, e que sua mãe precisava parar a dança a cada três minutos pra poder pular as faixas até alguma canção mais animadinha.

Aí você se dá conta de que isso não existe mais: nem os CDs, agora guardados em alguma caixa no porão, nem o móvel com o quebradinho, nem a sala daquela casa.


O tempo lhe pega de arroubo,  trazendo consigo a iminência da morte, e o quanto das coisas que você já amou na vida já morreram e ainda morrem o tempo todo, e como o momento presente logo vai morrer também.

O cientista observa sua reação.


De repente, você decide que queria voltar no tempo e dar um Spotify pra sua mãe ouvir quantas músicas quiser sem precisar parar de dançar por um segundo que seja. 

Isso faria tudo ficar bem no universo, até a morte.

"Diabos", você conclui, com lágrimas nos olhos, "eu pagaria até uma conta premium pra ela."


Nessa hora o cientista largaria a prancheta e voltaria a estudar o universo. 

É menos complexo.

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