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Aos planos que não deram certo



Tenho me cobrado muito ultimamente, e isso me irrita bastante. É como se eu tivesse um operador de telemarketing na minha cabeça me ligando de meia em meia hora falando "Senhor Fábio", eles nunca acertam meu nome, "está na hora de escrever novamente".

A cobrança tem fundamento. Nunca passei tanto tempo sem escrever ou publicar nada por aqui. Os últimos tempos foram turbulentos, mas... várias mudanças, mil sessões de terapia e um bom antidepressivo na cabeça, estou de volta.

De volta ao quê? Não sei. Por que motivo? Tô tentando roubar o caderninho do meu psicólogo pra descobrir. Mas quis voltar e passei os últimos dias me cobrando pra trazer algo de legal por aqui.

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Aí eu comecei a olhar ao meu redor e reparei em tudo o que eu tenho no quarto:

Um violão empoeirado de dez anos atrás, de quando eu decidi que era muita falta de vergonha na cara eu não saber tocar nada. Aprendi três acordes, o suficiente pra tocar a primeira parte de "É preciso saber viver", mas desisti por não conseguir fazer pestana. Plano feito, plano abandonado.

Um teclado, um ano mais novo do que o violão, de quando eu decidi que talvez eu só tivesse me enganado de instrumento. Aprendi três acordes também - pelo menos são diferentes do que os que eu sei no violão - e agora o teclado mora no fundo do guarda-roupa.

Uma pilha, uma pilha enorme, de livros que eu li pela metade. Estão do lado da minha cama, como se em algum momento eu fosse decidir retomar do ponto que eu parei no ano retrasado em vez de simplesmente começar um novo.

Um recibo da academia que eu pago apenas pra apoiar o mercado da educação física no Brasil.

Quase tudo que eu tenho tem a ver com alguma parte minha que ficou pra trás. E, honestamente? Eu não odeio nada disso.

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Eu sou tão feito daquilo que eu deixei pra trás quanto daquilo que eu levei adiante. Aquilo que eu não me tornei é tão importante pra mim do que aquilo que eu sou.

Alguns dos livros que eu li pela metade me formaram mais do os que li até o fim. Os sonhos que param na metade do caminho não formam um cemitério triste - são flores que brotaram num jardim e não duraram muito tempo. Foram bonitas enquanto existiram e hoje o terreno está livre pra brotar outra coisa.

Então, se algum dos planos que eu fiz para esse ano não for muito pra frente... Que seja. A tentativa já é válida o suficiente.

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Já me bastam os coaches de produtividade nas redes sociais me gritando que todo objetivo depende de um plano com começo, meio e fim.

Por isso volto pra cá tentando desligar a cobrança e propondo um brinde aos planos que não precisam acontecer. A gente joga uma sementinha, mas tudo bem se não vingar.

Um brinde também às coisas que nascem sem planejamento e tomam conta da nossa vida de um jeito surpreendente, como um matinho que cresce sem atenção e vira uma flor bonita.

E um terceiro brinde - eu tenho bebido muito - aos sonhos que levamos a sério. Eles existem também, e neles a gente insiste muito. Não por obrigação, mas porque a vontade é tanta que nos mantém ali, insistindo no cuidado até que brotem.

Entre um tipo de plano e outro, o jardim fica bem bonitinho.


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