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Escola de calar criança




Não é segredo pra vocês que eu cresci numa religião muito rígida. 

A rotina era intensa. Tínhamos reuniões religiosas várias vezes por semana, entre estudos bíblicos, escola de "teocracia", serviços de pregação na rua e imersão diária em lições espirituais. 

Esses dias, tentando puxar na memória o que foi que me acordou da vivência daquela seita, só consegui me lembrar de uma série de vivências escolares. Sim, porque se não fosse a escola, minha vida seria apenas a religião.

Foi um processo que começou comigo sendo a criança que não dançava quadrilha na festa junina por ser uma festa pagã e que foi, aos poucos, ampliando a minha visão de mundo.

Um pouco dos meus olhos deve ter aberto em uma aula de ciência. Outro pouquinho abriu com um livro do Jorge Amado que eu li enquanto matava aula. Outro tanto abriu conversando com colegas que tinham vidas muito diferentes da minha... 

A escola não foi um período fácil pra mim, mas salvou minha vida.

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Estive lendo a proposta da regulamentação do homeschooling, a educação formal feita em casa, e achei o projeto muito redondo. Um dos pais precisa ter ensino superior, as crianças precisam fazer provas regulares, tudo parece funcionar bem.

Mas o problema não é o ensino. Quem pede homeschooling não está preocupado com o quanto de conhecimento suas crianças vão adquirir. Sempre deu pra ensinar fora da escola, todo mundo pode fazer quanta aula de reforço quiser com seus filhos.

Não é pelo direito de ensinar a seus filhos aquilo que acredita, é pelo direito de roubar dessa criança o direito de viver qualquer outra coisa. É pelo desejo de proibir a convivência com outros pontos de vista, é pelo tentar manter a rédea curta e o controle apertado. 

É pelo direito de cegar uma criança antes que ela tenha a chance de enxergar o mundo, e assim garantir que ela ache normal qualquer absurdo que possa viver em casa - e quem lida com a intimidade humana sabe que é em casa que os grandes horrores costumam acontecer.

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A gente cresce tendo contato com pessoas diferentes. 

Só se torna alguém quem tem a chance de conhecer algum outro.

É vendo mundos diferentes do que os que temos em casa que aprendemos que somos menores que o mundo, e que esse mundo ser tão vasto merece ser explorado. 

Escola é onde a gente aprende que o outro é gente, também. 

Promover o homeschooling é arrancar de pessoas ainda muito vulneráveis o direito de conviver com a diferença e, mais perigoso ainda!, de reconhecerem a diferença em si mesmos. 

Não adianta ensinar as letras e os números em casa e promover o analfabetismo social. 

A educação, pra mim, foi libertadora. 

Espero que possa seguir sendo pras crianças dessa geração.

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