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Um gatilho, por favor




Bom, não vai dar pra escapar do grande assunto de interesse nacional dessa semana: a Taylor Swift.

Caso você seja hétero, o contexto é o seguinte: ela lançou um clipe essa semana, dirigido por ela mesma, em que encenava as suas inseguranças. Em uma cena, ela sobe na balança e, em vez de aparecer o peso dela em quilos ou libras ou megazords (não sei qual unidade de medida os americanos usam) aparecia apenas a palavra FAT: GORDA.

A cena era pra representar a luta da cantora com problemas de imagem corporal e com distúrbios alimentares, que ela já falou várias vezes que a acompanham pela vida.

Aí uma galera xingou a moça porque ela não é gorda e estava se apropriando de um sofrimento que não era o dela.

Eu sei, eu sei, pobrezinha da milionária. Mas cabe a pergunta: vale a pena calar uma pessoa porque ela pode ser mal interpretada por alguém que não compartilha dessa mesma experiência?


Por outro lado, porque eu sou do centrão, a exposição de um sofrimento de forma indelicada a alguém que tenha um problema relacionado e que possa sofrer com isso não se trata de uma violência que deveria ser evitada?


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A Fran Lebowitz, escritora mal humorada americana, tem um ódio especial por quem precisa de cães de companhia em viagens de avião.

Pra quem não sabe, algumas companhias aéreas permitem quem tem ansiedade viaje com um cachorro no colo, caso comprove com atestado médico que isso é necessário.

Para ela, nem crianças precisam disso. Quando uma criança chora você lhe entrega um ursinho de pelúcia, não um animal vivo. As experiências de dar um urso vivo para uma criança que chora, aliás, costumam ser desastrosas.

Se nós esperamos da criança que ela tenha a capacidade de metaforizar o aconchego que ela precisa através de um objeto, então por que deixamos de esperar isso de uma pessoa adulta?

Na minha opinião, é porque viagens de avião são chatas e ficam mais legais com um poodle sentado na poltrona ao lado.


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Outra cantora pop fodona, a Lizzo, passou por uma situação de crítica parecida recentemente. Ela lançou uma música com a palavra "spaz", traduzindo literalmente "espástica", pra descrever um estado de espírito eufórico, incontrolável.

A música recebeu protestos de grupos de pessoas com deficiência, que diziam que o termo era ofensivo, muitas vezes utilizado para ridicularizar pessoas que sofrem espasmos musculares por causa de suas condições.

A Lizzo mudou a letra, e me parece ter feito certo: ela não estava falando de uma experiência própria, e sim usando uma metáfora infeliz sem perceber que estava machucando um grupo de pessoas.


Parece existir, ali, uma linha mais fácil de perceber entre o que é ofensivo e o que é simplesmente o relato de uma vivência. Se ela literalmente tivesse espasmos na situação que descreveu na música, seria outra história.

Liberdade de expressão é meu pastor e gente me xingando na internet não faltará, mas me parece que os artistas (eu ia usar a expressão "produtores de conteúdo", mas um raio caiu do céu e partiu meu notebook ao meio bem na hora) podem adicionar uma camada de cuidado na hora de fazer sua arte.

Não custa nada perguntar "Qual é a melhor maneira de expressar o que eu sinto de um jeito que machuque o mínimo de pessoas fragilizadas possível?"


Sei lá. Parece elegante.


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Ao mesmo tempo, pra quem está na porção consumidora da arte, parece importante lembrar que é saudável ser capaz de enfrentar situações de estresse, e há um trabalho a ser feito também na direção de aumentar essa capacidade.

Quão frágil alguém deve estar para se sentir pessoalmente atingido por uma cena de um clipe? Há pessoas assim, e é importante protegê-las. Mas será que essa proteção vem de negar aquilo que é sombrio e pode nos machucar? Será que o mundo realmente ficaria melhor com livros sem vilões, histórias sem angústia, sem a representação das nossas dores, ainda que de uma forma que nos fira?


Será que a representação do sofrimento através da arte não é justamente o motivo da arte existir? Será que não é melhor, quando alguém se ofende com uma obra artística, oferecer a ela também a oportunidade de produzir artisticamente a partir da sua subjetividade e assim se fortaleça?

Sensibilidade é garantir que uma pessoa com deficiência visual tenha suas necessidades atendidas e possa se movimentar com autonomia usando os recursos que tem, não apagar as luzes pra fingir empatia por não estar enxergando também.

Por mais que seja elegante preservar o outro de dores desnecessárias, todo mundo vai ser atingido bem no meio do gatilho algum momento, seja pela via da arte ou pela crueldade da vida mesmo.


E todo mundo precisa estar preparado pra isso.

Até a Taylor.

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