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A arte e a ética da fofoca


Na hora do vestibular, escolhi uma profissão particularmente difícil pra mim. Ouvir pessoas é ótimo, mas eu não sou muito bom com segredos e várias horas do meu trabalho diário precisam ser mantidas em sigilo. Por sorte existe a supervisão clínica, que é um espaço que garante a ética tanto por melhorar a capacidade técnica quanto por permitir que o psicólogo tenha um lugar pra falar de trabalho sem romper o segredo profissional.


Eu devia ter sido jornalista. Sempre tive o maior prazer de chegar pras pessoas e contar alguma notícia.

"Ficou sabendo que a Luisa passou na Federal?" - uma novidade boa é sempre uma alegria de se falar, mas uma tragédia? Hmm, que sabor.

"Você viu que um avião caiu em cima de um trem que explodiu em cima de um filhotinho de capivara?"

A pessoa diz que não viu.

"Foi horrível, tem sangue de capivara na rua até agora". A cara de surpresa do interlocutor dá a mesma sensação gostosa de quando alguém ri da sua piada.


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Como sou só um amador na arte de dar notícias, me considero só um fofoqueiro mesmo.


O duro é que o fofoqueiro é um ser muito mal compreendido. Fica com a pecha de criar intrigas quando na verdade é só um coração bom que quer levar informação e alegria pro seu povo.


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Eu tenho pra mim que tem uma grande diferença entre fofoca e intriga. Intriga eu não gosto. Eu só quero ter duas ilusões na vida: a que todo mundo gosta de mim e a que eu posso gostar de todo mundo.


Mas fofoca, fofoca mesmo, é uma coisinha inocente. Tá aqui a diferença:


Exemplo 1 - "Você sabia que quando a Taís ficou com o Daniel ele pediu pra ela cagar na boca dele durante o sexo?"

Essa é uma fofoca clássica. Ela traz o elemento da surpresa, aquele pontinho de absurdo que é capaz de iluminar o dia de uma pessoa.


Exemplo 2 - "E o Daniel namorou anos com a Isa, né? Será que ela cagava nele também?"

Também considero uma fofoca inocente. Sim, tem um elemento de especulação, mas nada definitivo. É um estímulo para a imaginação. Aprovado.


Exemplo 3 - "E a Isa agora está namorando o Allan, né? Será que ela caga na boca dele também?"

Começamos a especular muito longe, e a maldade vai depender das informações disponíveis sobre o Allan. No caso, se alguém comentar que viu ele derrubando um sanduíche no chão, pegando e continuando a comer... A suposição fica mais pesada, mas ninguém está sendo acusado de verdade.


Exemplo 4 - "Você sabia que o Allan come bosta?"

Reprovado. Nesse caso, a cadeia de fatos é longa demais para a fofoca ser inocente. Tem um tom de maldade, gera uma impressão ruim sobre a pessoa. Pode gerar problemas para uma possível parceira mais afoita do rapaz que, no ímpeto de agradar, pode acabar defecando onde não devia.


Exemplo 5 - "Allan, o Flávio tá espalhando pra todo mundo que você come bosta!"

Esse é o pior tipo de fofoca. A pessoa pega uma bala perdida em pleno ar e lhe entrega o endereço de alguém. Isso sim é intriga. Não traz novidades, não oferece um elemento cômico e ainda pesa o ambiente.


Quem quer ficar num lugar em que não se pode falar nada de ninguém? Como é que uma amizade vai florescer num terreno desses?


As pessoas tem direito ao sigilo sobre a fofoca que contam, pôxa.

É uma questão de ética

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