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O terrível caso do empreendedor empolgado



Da pandemia pra cá tem aparecido um tipo muito específico de empreendedor na vizinhança.

É sempre assim: abre-se uma bodeguinha qualquer. A estética do estabelecimento fica no ponto exato entre "vou caprichar pra ficar chique" e "o meu FGTS tá acabando". Vá lá, tem seu mérito. 

Ao entrar na loja, você é atendido por um cara entre seus quarenta e cinquenta anos. É este o espécime que me fascina.

Ele não parece um dono de lojinha de bairro. A energia que ele transmite é diferente, de quem passou bastante tempo trabalhando em outra área. 

Ele tem aquele olhar de gerente de banco, de quem provavelmente trabalhou em algum cargo mais ou menos alto a vida inteira e, afetado por esses passaralhos inevitáveis, se viu sem emprego.

Mas calma! Ele não quer sua compaixão.

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Ele, que com certeza que ele se chama Gerson ou algo do tipo, não deixou a demissão lhe abalar. Ele podia estar por baixo, mas ia dar um jeito de recomeçar a sua vida. Ele não acredita em vitimismo. Ele acredita em esforço, trabalho duro e é contra o mimimi. Ele ouve podcasts de milionário pra estimular o cérebro. 

Ele se emociona assistindo o Luciano Huck. Se ele fosse uma cor, seria laranja Itaú. Ele sabia que era questão de tempo para ele encontrar outra coisa pra fazer da vida.

Um dia, enquanto estudava o no livro Seja F*da!, teve uma epifania e finalmente decidiu: era hora de virar o próprio chefe.

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Tá bem, vou parar de chutar quem tá por baixo. 

O cara tá fazendo o que pode e, sinceramente, a pessoa tem todo o direito de ter a personalidade de uma parede cinza. 

O que me incomoda é que esse cara nunca trabalhou atendendo pessoas na vida. É visivelmente a primeira vez em que não há uma secretária ou um estagiário pra fazer o trabalho sujo por ele. Acolchoado por uma vida de privilégios, ele ainda não aprendeu que atender o público é horrível. 

Um desses caras literalmente gritou UHUL quando eu entrei na lojinha dele. Nunca vi alguém tão feliz por ver alguém comprar cem gramas de banana passa.

Ele quer tanto mostrar que é um empreendedor foda que trata cada cliente com o maior entusiasmo que um ser humano já teve fora de um carnaval. 

Ele me trata como um velho amigo: "Fala, amigão! Tudo azul??". 

Ele sorri como se fosse o gato da Alice, se o gato da Alice tivesse levado um choque elétrico. Ele ensacola minhas compras falando muitos decibéis acima do necessário.

"Comprando um docinho pro café da tarde?" - ele faz a pergunta óbvia com o astral de um palhaço que caiu numa duna de cocaína.

"Sim", eu respondo.

"Boa! Boa! Estamos à disposição!!! Qualquer coisa passa aqui!"

Eu pago. Quando estou quase passando da porta, ainda dá tempo de ele meter um "Abraço, amigão!"

Ele tem certeza que está me atendendo bem. Ele tem certeza que ele é o melhor vendedor que já pisou nesse país. Ele é o Elon Musk da banana passa.

Eu saio da loja exausto, violado pelo ânimo positivo daquele homem. 

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De vez em quando, ele reclama que nenhuma funcionária pára no emprego, que é difícil achar alguém bem disposto pra trabalhar, que quando contrata alguém precisa ficar pedindo pra sorrirem mais.

Eu entendo que meu pessimismo contamina um pouco a minha visão. Ultimamente, se eu vejo o olho de alguém brilhando eu já torço pra ser uma lágrima.

Eu não quero ser atendido por alguém que já pisou em brasas num curso de coach. Quero entrar numa loja e trocar aquele olhar cansado de "Sexta-feira não chega nunca, hein?" com alguém que também suspira na frente do espelho em casa antes de sair pra trabalhar.

Alguma coisa não me soa sincera na alegria daquele homem.

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O duro é que os meses passam e eu vejo o estoque de entusiasmo do homem acabando.

O sorriso de Narcisa Tamborindeguy dá lugar a um outro, que não consegue disfarçar a angústia que surge. Ele inventa alguma promoção pra tentar estimular o movimento, que tá fraco.

Depois a testa vai franzindo. O bom dia vai perdendo o volume. O homem começa a sentar num banquinho atrás do balcão. 

"Não dá pra dar certo num país com tanto feriado", ele reclama. 

Desse dia pra frente eu não consigo mais tirar sarro daquele homem. Ele agora é um fodido como eu, estamos de igual pra igual. 

Finalmente um pouco de sinceridade aparece e eu fico mais tranquilo de entrar na loja dele. Eu quase sinto falta do entusiasmo excessivo que ele tinha. 

Meu amigo desempolgado, espero de verdade que as coisas melhorem pra você. 

Mas que eu fico aliviado de você parar de acenar e gritar "Opa!" pra mim toda vez que eu passo na frente sua da loja, eu fico mesmo.

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