Lindinha era a cara da ansiedade desde pequena. Quieta demais, afobada pra tudo, desengonçada como uma bicicleta com os pneus murchos. Trabalhava desde pequena e nunca lhe faltou trabalho -- não porque fosse muito boa, mas porque evitar limpar a própria casa é a prioridade de qualquer um que começa a ganhar um pouquinho de dinheiro. Desengonçada, ansiosa e calada, Lindinha limpava a casa alheia e empurrava a vida como podia.
Obstruída da satisfação, como todo humano, começou a achar pouco.
"Há de existir algo maior", sofreu Lindinha, e após meses de questionamento interior e sofrimento, ela encontrou a arte.
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Nenhum artista se encontra de primeira, mas Lindinha pegou fácil a capacidade de conduzir o pincel sobre o stêncil pré-fabricado, de contornar os detalhes com tinta preta, de escolher a frase certa para arrematar o espetáculo. Era um dom.
Sua produção era uma série de gatinhos de chapéu brincando com novelos de lã, seguidos pela frase "Nada como um dia após o outro"; galinhas de olhos esbugalhados chocando seus ovos e fazendo tricô, acompanhadas por "Quando Deus fecha uma porta, Ele abre uma janela..."
Não havia na vizinhança quem pintasse panos de prato como os de Lindinha.
As clientes sempre compravam algum, e nem era só pra ajudar. Eram poucas as que tinham coragem de usar o pano pra secar louça mesmo - era tudo pano bonito, de deixar estendido sobre o vidro do fogão limpinho depois da faxina.
Lindinha fez algo maior que ela mesma.
Lindinha transcendeu.
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Agora, vejam como a vida do artista é surpreendente. Num dia em que as musas estavam especialmente sacanas, enquanto tentava se equilibrar entre responder uma cliente no WhatsApp e começar a pintar os panos daquele dia, Lindinha se atrapalhou.
Desengonçada como sempre, derrubou um tanto da tinta amarela sobre o pano de prato virgem. Se tem uma coisa que um pano de prato tem que ser, é branco, e aquele estava arruinado.
Lindinha não se abalou.
Tomada por um instinto criativo que nunca sentira antes, espalhou o tanto de tinta até os extremos do pano. Molhou o pincel num tanto de vermelho e lambrecou os cantos. Com o pincel fino e a tinta preta, fez várias casinhas em perspectiva, da metade do pano pra baixo. Depois, adicionou pouco a pouco tons de azul como se ela mesma fosse a aurora colorindo um novo dia.
Acordou como de um transe e olhou sua obra pronta.
Como Jeová no sexto dia da criação, viu que era bom.
Lindinha fez um pano como nenhum outro tinha sido pintado antes. Traduziu cada sentimento que já teve e não soube dizer em toques precisos de pincel. Aquilo foi a coisa mais bonita que ela já fez na vida.
"Isso precisa de um título", pensou. E pensou, pensou. Decidiu e sorriu:
"Nascer do Sol em Divinópolis!"
Ela nunca foi a Divinópolis, nem saberia dizer onde é.
"Dane-se, é bonito."
Divinópolis é um estado de espírito. Tudo é um estado de espírito pra quem é bom de espírito.
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Uma vizinha chegou logo depois e Lindinha deixou o pano à mostra, sem falar nada. O elogio que viesse espontâneo.
A vizinha falou de um assunto, depois de outro, aí olhou pra pintura recém-feita e disse:
"É nesse pano que você limpa o pincel?"
Nem todos os olhos estão prontos pra arte de qualidade.
Lindinha não se deixou chatear. Esperou o pano secar bem e levou pra faxina do dia seguinte. A patroa era uma mulher estudada, ia entender melhor.
"Dona Ana, eu trouxe pano de prato pra vender hoje, se a senhora quiser ver..."
"Tá bom, deixa na mesa que eu já dou uma olhada..."
Lindinha colocou uns cinco ou seis panos empilhados na mesa, o Nascer do Sol em Divinópolis por último, pra não parecer que estava pedindo elogio. Ficou ansiosa pra patroa ver.
Dona Ana olhou o primeiro pano, o segundo, o terceiro - que separou de ladinho pra comprar - e quando chegou no último só falou:
"Ah, você tem criança?"
Como se aquilo fosse um monte de rabisco. As pessoas tem inveja, Lindinha.
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Lindinha já não queria mais mostrar sua pintura pra ninguém. Deixou o pano guardado com as suas coisas de pintura por um bom tempo. A vontade de pintar ficou guardada também, porque pintar pra quê se ninguém entende nada?
Duas semanas se passaram até uma estranha bater na porta com algumas perguntas pra fazer. "Quantas pessoas moram na casa? Quantas geladeiras tem aqui? A senhora tem alguma religião?"
Era o censo, mas Lindinha ficou tão tocada com o interesse da pessoa nela que ofereceu um cafezinho. A moça do censo, cansada, aceitou.
Enquanto Lindinha passava o café, a moça reparou no pano que ela tinha jogado sobre o ombro.
"Que galinha fofa! Gostei do seu pano de prato!"
Lindinha se derreteu. Artistas são vaidosos.
"Obrigada! Eu que pinto!"
"Ah, é? E você vende?"
"Vendo! Deixa eu te mostrar."
Enquanto o café quente escorria pelo filtro, Lindinha entregou a pilha de panos pintados para a moça simpática.
"São lindos!", ela passava o olho um por um. "Amei esse!"
Era o Nascer do Sol. E o Sol pareceu nascer mesmo dentro de Lindinha:
"Você gostou?"
"Super diferente! Amei!", ela disse, enquanto Lindinha sentia-se ganhando um Oscar. "Você vende?"
Vender? Lindinha ficou chocada. Não, vender não tinha lhe passado pela cabeça. Um ultraje perpassou seu corpo inteiro, como se alguém tivesse lhe feito uma oferta para comprar seu filho recém saído do ventre.
"Não, não! Esse não. Os outros sim. Esse não."
A moça do censo não deu muita bola, mas comentou:
"Que pena. É muito bonito."
Tomou um café rápido e foi embora.
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Lindinha recuperou seu orgulho. Finalmente alguém entendeu sua obra.
Ela pegou o pano, foi até a sala e o estendeu sobre uma porta da estante, pra ficar bem visível pra todo mundo que passar por lá. O Nascer do Sol é pra ser visto.
Satisfeita, pegou seus pincéis e tinta e foi até a mesa da cozinha novamente.
Pintou um gato com a barriga pra cima e escreveu embaixo que "O Senhor é meu pastor e nada me faltará".
Divinópolis é um estado de espírito.

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