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Enganei o bobo na casca do ovo


Quem disse que desenho animado não é ciência? 

Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel. 

Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar?

Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso.

Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão.

O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saiba), nem tinha qualquer outra característica que o tornasse parecido com uma gansa. O gansinho o via como mãe porque precisava de uma e o homem calhou de estar por lá.

De tanto ser seguido pelo gansinho, Lorenz pensou "esse filho da puta deve achar que eu sou a mãe dele", e a partir daí criou a teoria do imprinting, que tenta explicar como alguns comportamentos são instintivos. 

Não há indícios de que Lorenz tenha dividido o prêmio Nobel que recebeu com o gansinho. Que mãe mais narcisista!

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Gosto de pensar nessa descoberta como uma boa explicação de por quê algumas pessoas são atraentes para a gente. Amar é instintivo, e a gente não passa de um bando de gansos ingênuos que só não nasceram ontem porque nasceram agora mesmo.

Como é forte nossa capacidade de projetar no outro aquilo que a gente precisa.

Passa na sua frente uma pessoa com um bom emprego? Finalmente alguém capaz de cuidar de si mesmo e que não vai dar trabalho! 

Passa um cara com o sobrinho no colo? Deve ser um homem de família, a pessoa certa pra casar e ter filhos. 

A pessoa mostrou muito pouco, o resto veio do nosso olhar, da nossa necessidade de encontrar alguém com aquelas características. Se a pessoa vai ser aquilo ou não, só se descobre muito tempo depois, muitas vezes num consultório de psicologia ou num escritório de advogado.


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Talvez por isso seja tão natural olhar pro passado da própria vida amorosa e pensar "como eu consegui amar AQUELA pessoa?". 

Aquilo que hoje é constrangedor não era mais atraente no passado - a nossa necessidade que mudou, e deixamos de olhar a pessoa com os mesmos vazios de antes. Hoje, o molde que a gente precisa preencher é outro.

Conhecer alguém por pouco tempo e sentir que a pessoa é feita pra você é, simplesmente, olhar para alguém que a gente sente que pode nos dar afeto e teimar muito, muito que ela é essencial pra sua vida. 

Curiosamente, essas pessoas também costumam lembrar muito nossas mães.

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