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Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou.

Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele.


Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali.


Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últimos.


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Certeza não é sinônimo de pressa, e eu demorei um pouco pra agir - tenho o péssimo hábito de me movimentar só quando completamente exausto de uma situação.


Era começo de fevereiro e eu estava atendendo uma paciente que lamentava como seu relacionamento anterior se prolongou mesmo depois de ela saber que não teria futuro, e como isso lhe machucou, e o quanto ela perdeu por não ter se posicionado antes.


Quando a sessão acabou, meu celular tinha duas mensagens me esperando. Uma do paciente do horário seguinte, avisando que não ia poder vir, e outra do meu então namorado falando que estava por perto e perguntando se eu poderia tomar um café. Era hora.


Fui tomar o café. Não consegui abraçá-lo quando o encontrei.

Finalmente eu tinha me dado conta do quanto eu estava esgotado pela absoluta falta de carinho. 


Vejam, ele não era um monstro. Ele me acompanhava em muita coisa, cumpria os requisitos mínimos para ser um parceiro aceitável. Meus amigos eram só elogios nos sete anos que a gente passou juntos.


Mas a erosão não vem de uma vez. Vem de passar anos sem ouvir que é bonito, e então ouvindo "olha, esse peso que você está não tá legal não", e então "você não acha que tá muito acomodado na sua carreira?", de uma sequência de abandonos que podem ser justificados pela lógica e por isso mesmo você acaba permitindo que atropelem o coração. 


Erodiu, esgotou e acabou. Foi tenebroso, mas fez sentido.


Essa foi a pancada número um.


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Do término do relacionamento, fui à psiquiatra e mudei minha medicação - a anterior era maravilhosa, mas eu ganhei quinze quilos tomando e aparentemente isso tinha relação porque uma parte grande do peso foi embora assim que eu parei de tomá-la - mas, como acontece muito nesses casos, não acertamos de primeira e eu passei semanas sem dormir direito.


Por "sem dormir direito", entendam "dormir uma hora por noite". Eu realmente não sei como eu dei conta de viver nesses dias, até porque quando eu não durmo eu fico extremamente choroso (isso acontece com mais alguém? é eu perder um pouco de sono numa noite qualquer que eu sinto vontade de chorar porque o elevador tá muito longe). 


Ainda assim, consegui trabalhar - como quem aperta um tubo de pasta de dente, eu espremia cada restinho de energia para estar atento no consultório, pronto pra desabar quando chegasse em casa depois. Desabar, mas não dormir. 


Num ímpeto de fazer as coisas melhorarem, tomei uma decisão: ia fazer uma pequena cirurgia que eu adiava faz tempo e aproveitar o molho forçado pra escrever um projeto que eu tinha faz algum tempo. Enquanto isso, ficaria longe do consultório por alguns dias e poderia descansar a cabeça. 


Isso na teoria. 

No dia seguinte da cirurgia, acordei com um som de gotas caindo. "Deve ser o chuveiro pingando", pensei antes de lembrar que o meu gato não costuma miar pro chuveiro. 

Cuidando com o curativo, levantei e vi do que se tratava. O gato não conseguia atravessar o corredor porque ele estava completamente alagado. 


Tentei secar o chão de tacos de madeira e ligar pro encanador ao mesmo tempo, e a minha semana de descanso e escrita foi - literalmente - por água abaixo. Foram semanas de quebra-quebra até o encanamento milenar voltar a funcionar totalmente.


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Revisando: nesse ponto eu estava descorneado, deprimido, sem dormir, com dois cortes ainda sangrando na minha cara e com as paredes de casa todas quebradas.


E ainda estava tudo bem. 


A gota d'água foi a seguinte:

Era noite, eu estava com fome e minha habilidade culinária estava severamente debilitada. Resolvi fazer pipoca, mas não na pipoqueira de micro-ondas, eu queria caprichar. Eu ia me tratar bem, e meu self care ia ser uma pipoca de panela, com manteiga, praticamente um prato gourmet perto da minha capacidade naquele momento. 


Era minha primeira vez usando uma panela nova, daquelas de fundo triplo, e eu não sabia que ela continuava tão quente depois de desligar o fogo. No tempo de pegar a tigela no armário, minha pipoca estava queimada. 


Tudo certo. Eu resgataria o que desse dali. Nem quis reparar muito que a panela também queimou e que eu precisaria de muito bombril pra desfazer o estrago. Paciẽncia.


Peguei a panela e me queimei. Dedo na água corrente, tranquilo, acontece. 


Depois de todo esse tempo, apoiei a panela na minha mesa - ela já estaria fria, certo? Errado. Minha mesa, minha primeira compra de algum valor depois de me mudar pra Curitiba, quase vinte anos atrás, minha companheira da vida inteira... Queimada. Um círculo amarelo queimado pela panela na fórmica branca a marcou pra sempre.


Foi ali. Esse foi o ponto mais baixo de 2025. 

Eu sentei no chão e chorei, chorei, chorei, como se todos os elevadores do mundo estivessem a anos-luz de distância. 


Engraçado como uma coisinha pequena pode trazer à tona tanta dor guardada. Ali eu fiquei triste por umas duas semanas. 

Não consegui escrever uma página que fosse no período designado a escrever. Aliás, mal escrevi esse ano. A energia estava toda designada a seguir vivendo.


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Eu não digo, também, que foi o ano mais solitário da minha vida porque eu sou um atleta veterano nessa categoria. Mas foi um baque, sim. Seja por não ter alguém para compartilhar os finais de semana, seja por precisar me recolher mesmo. Foram muitos dias sozinho em casa, muitos fins de semana sem ver outra pessoa. 


Mas cuidando de mim: voltando a conseguir dormir bem, voltando a cozinhar (e pegando gosto por isso, e ganhando um novo hobby), fazendo longas, enormes, intermináveis caminhadas, voltando pra academia e me lembrando do quanto eu gosto de fazer exercício físico.


Como bom (bom?) analista junguiano, me lembro de dois elementos arquetípicos muito relevantes para essa situação: a carta da Morte, no tarot, e a Meredith de Grey's Anatomy.




A Morte, no tarot, é um símbolo de recomeço. As coisas morrem porque precisam seguir em frente de outra forma. 

A Meredith, em Grey's Anatomy, é também um símbolo de recomeço. Todos ao redor dela morre, ela quase morre um milhão de vezes, mas ela segue em frente. Quanto mais temporadas fazem dessa pataquada, mais eu gosto de como inventam um jeito de ela seguir em frente. Opa, agora ela tem uma irmã que ela não conhecia que também é uma médica genial! Opa, essa irmã morreu. Opa, agora ela tem outra irmã que ela não conhecia e que também é uma médica genial! De qualquer forma, ela segue em frente.


2025, pra mim, foi também um recomeço. 

Foi o auge de um processo de vários anos em que eu perdi muita coisa: a empresa que eu criei com amigos e que implodiu por infantilidade, a minha relevância online que já me fez ser um psicólogo famosinho-de-internet e que hoje me devolveu ao anonimato completo, um grupo de amigos que implodiu junto com a sociedade da empresa, mas do qual sobraram os melhores, o relacionamento, a perda de uma amiga que era uma segunda mãe pra mim...


E aqui estou eu, vivinho como nunca. Sem opção senão o recomeço, porque é impossível não seguir em frente. Ficam marcas, sim, mas que a gente pode disfarçar como quem bota uma toalha de mesa em cima do queimado que a panela de pipoca deixou.


Dois mil e vinte e cinco foi uma pancada, mas eu nasci de novo. 

Com sorte, esse ano eu não morro. 


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