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Da lata do lixo: Discrição

Nota rápida: Vendo meus arquivos no computador, resolvi começar uma nova série, só com os textos que escrevi e disse que nunca iria publicar uma merda daquelas, só pra me contradizer e ter o que colocar aqui quando não dá tempo de escrever.

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Acho que na vida tudo se equilibra. Se você tem só o claro, ou só o escuro, é fácil definir. É claro!, é escuro!, é fácil definir. Mas o claro e o escuro só existem juntos. Até no mais claro dos claros, tem um pouco de escuro, e o bastante do claro se mistura no escurinho do pouco escuro e aquela claridão é única, e é mistura, e não dá pra definir o que é, e tudo por causa do pouquinho de escuro que deixa tudo equilibrado ali.

Ela ficava apavorada naquele quartinho. A enfermeira já nem vinha ver mais, não era caso de tratar com remédio. As paredes azuis daquele quarto que parecia enorme quando ela entrou ali pela primeira vez desbotavam no mesmo ritmo que ela. Perdiam o viço, perdiam o gosto, perdiam a cor. O quarto que era gigante à primeira vista, e parecia que ia engolí-la, virou anão. E a engoliu mesmo assim, a engolia um pouquinho cada dia.

Por menor que o quarto parecesse, a porta parecia cada vez mais longe dela. Mais longe do mundo.
Ela imaginava que se alguém batesse na porta...

Ela imaginava que a porta tremia – era alguém batendo – e depois rangia para abrir, e então entrava um homem. Não bonito. Careca, mas que sorria a careca inteira quando a via e dizia que sempre quis ter vindo e tê-la conhecido, e a abraçava e a levava para longe e tratavam de ficarem felizes.

Ela imaginava que a porta escancarava e entrava todo um circo de uma vez, e os palhaços a faziam rir, e os malabaristas lhe faziam cair o queixo, e ela arranjava uns trocados para comprar o algodão doce, e depois ela aplaudia e o circo ia embora, e ela ficava com peso na consciência de ter gasto os poucos trocados que tinha.

Ela imaginava que uma mulher entrava – era sua mãe – e a acolhia, e a amava e a nutria como acontecia tantos anos antes, e ela voltava ao útero e tudo que sentia era amor e calor, nem fome sentia mais, e perdia a memória das paredes azuis desbotadas.

Mas só pôde fazer imaginar. A porta a escarnecia, estática, e a humilhava cada vez que não abria. Levantar ela não podia, e tudo na vida se equilibra, e ela queria viver. Todo o mundo em volta não a queria viva, ela era pobre e ocupava espaço. Ela querendo a própria vida, os outros querendo a sua morte. E as coisas se equilibravam e as vontades se confundiam e misturavam. Nem vivia nem morria, nem claro, nem escuro. Apenas estava lá.

O claro da vontade dela se dissolveu murcho no escuro da vontade dos outros, e então a lembraram como “discreta”.


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Nota rápida #2: Um assassino, vários suspeitos, vários escritores. Minha participação no Austregésilo foi para o céu foi publicada hoje, e você pode ler o depoimento de Alceu, o biógrafo.

Comentários

  1. Anônimo2:21 PM

    Até o seu "impublicável" é ótimo..

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  2. "A porta a escarnecia, estática, e a humilhava cada vez que não abria."
    demorou, mas vc postou d novo!
    otimo equilibrio entre o incrivel real e o imaginario!
    falou com um malabarista: equilibrio!

    ResponderExcluir
  3. Anônimo6:25 PM

    Odeio textos tristes. Odeio a morte. Odeio você!

    ResponderExcluir
  4. Anônimo9:49 AM

    Eu gosto de carecas, acho bonito!
    Deposita dois reau preu tbm Falvio!

    A.F.L.B - Banco do Brasil - Agência: 2593-3 C/C: 9.500-1

    Obrigada
    Saudade
    Bjo

    ResponderExcluir
  5. Deixei um meme pra você no meu blog. É, pode me odiar! :P

    Beijo!

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