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O Caminhante Noturno

O rapaz estava insone, tinha passado a madrugada aceso. Não por ansiedade, ele não ansiava muita coisa, quer dizer, talvez ansiasse dormir e isso o afastava ainda mais do sono, mas nenhuma grande ansiedade que justificasse o estado de atenção ligado.
Resolveu sair. O bairro não era perigoso, mas ainda eram 4 e meia da manhã, escuro, o dia ainda parecia uma esperança incerta. Saiu mesmo assim: vestiu uma jaqueta, botou o celular no bolso, saiu e trancou a casa.


A cidade estava calmíssima. Mais clara do que de dia em alguns lugares, graças à iluminação artificial e às luzes das vitrines de uma ou outra loja. A cidade, pensou o rapaz, era aquela, não aquele lugar barulhento que, naquele momento, parecia tantos quilômetros distante e na verdade era distante por algumas horas. Depois inverteu o pensamento, e parecia estar no esqueleto da cidade, no corpo morto, sem vida, calmo. Talvez, se fosse comparar, seria o cadáver de um vilão, que ganha uma serenidade e uma quase-beleza calma depois de perder a sua cruel vitalidade.


Caminhou sem encontrar pessoa até chegar à pequena praça do bairro. Muitas árvores, e aquele cheiro que a natureza adquire pela manhã. O rapaz andava, observador e calmo, até a surpresa:
- Você!


O rapaz olha para a direção da voz. Esqueceu que a cidade não estava realmente morta.
- Eu?
- Tá vendo mais alguém aqui? - Era outro rapaz, mais ou menos da mesma idade, gorro e casaco.
- Burrice minha, desculpa. Não imaginei que encontraria alguém aqui nesse horário.
- É, aqui é calmo mesmo. Mas, rapaz...


“Deve estar querendo alguma informação. Não deve ser daqui, deve ter descido do ônibus no começo da noite e caminhado até aqui.” pensou o rapaz que passeava.
- Sim?
- Er... Passa a grana.
- O quê?
- Acho que foi uma punch line bem clara! Quer dizer, talvez “Mãos ao alto, é um assalto” soasse melhor. Só que tem rima, e eu não sou bom com poesia. Passa a grana!
- Você precisa mesmo falar mais alto e com mais velocidade quando pede pra passar a grana?
- Passa a grana!
- Bem desse jeito mesmo!
- PAS-SA A GRA-NA. - O ladrão falou lentamente, por entre os dentes.
- Agora sim, parece ladrão de filme americano quando tortura o mocinho um pouco mais antes do mocinho tirar uma arma do bolso e atirar nele até a morte.
- Valeu. Poesia não me dou bem, mas até que me viro como ator. Ei, arma?
- Era modo de falar. Tenho medo de arma. Um tio meu morreu quando a arma que estava no bolso disparou nele.
- Morreu com tiro no pé?
- Não, na cabeça. Ele usava a arma ao contrário pra impressionar as garotas.
- Ah. Então você não tem arma?
- Não, não trouxe nada. Aliás, trouxe o celular, mas é velho, não serve pra nada. Nem tira foto, pra você ter idéia. - Mostrou o celular, antigo, pra provar o que estava falando.
- Uau. Ainda existe isso? Mais um tempo e valeria roubar como relíquia.
- É. Mas mesmo assim, se isso fosse um filme americano, eu não seria mocinho.
- Você não é mocinho?
- Ainda não menstruei.
- Ahn?
- Piada... Era piada, sabe, a mulher fica mocinha quando mens...
- Sim, entendi. Mas você não tem dinheiro, nada?
- Nadica. Mas também, olha a hora!
- Como?
- Roubando à essa hora? Não passa quase ninguém na rua!
- É. Mas tem muito ladrão concorrendo comigo, tenho que pegar esse turno algumas vezes por semana pra completar a renda.
- E adianta?
- Depende do dia. Hoje, por exemplo, acho que vai valer.
- Por quê?
- Pagamento dos aposentados. Já, já, passa um monte de velhinhos indo cedo pra não pegar fila.
- E você assalta eles?
- Sim, lógico. As crianças precisam comer.
- Você tem filhos? - já era praticamente um encontro social.
- Não, mas não vem ao caso.
- Não seria mais sensato assaltar os velhinhos depois deles sacarem a aposentadoria?


O ladrão levou a mão ao queixo e balançou a cabeça.
- Sabe que faz sentido?
- Você sempre vem em dia de pagamento do INSS?
- De três meses pra cá.
- E isso nunca te passou pela cabeça?
- É... não é à toa que os velhinhos só tinham passe de ônibus pra me dar. Os que ainda pagam pra andar de ônibus, pelo menos.
- E dá pra viver de passe de ônibus, me diga?
- Pelo menos dá pra voltar pra casa.
- Onde você mora?
A mão do lavadraz volta ao queixo.
- Ahn, aqui.
- Na praça?
- É. Melhor, perto do trabalho. Me poupa uma caminhada...
- Eu devia ter batido na árvore antes de entrar na praça, então?
- Quê?
- Esquece. Mas eu vou indo então, que já tem velhinho vindo e tenho de voltar correndo pra dar tempo de me arrumar pra ir pro trabalho. Até mais!
- Até.
O rapaz anda alguns metros e escuta:
- Espera!
Vira-se para trás.
- Que foi?
O ladrão estende a mão:
- Quer um passe pra ir de ônibus?
Bom sujeito, o gatuno.
(O andante notívago dormiu no ônibus e perdeu o trabalho aquela manhã. Foi demitido e está considerando pegar o turno da manhãzinha na praça.)

Comentários

  1. Um humor triste, FLÁVIO.. Mas excelente, como sói acontecer...

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  2. Anônimo8:04 PM

    Adorei a história Flávio,parabens pelo blog,adoro seus textos...abração cara.

    ResponderExcluir
  3. Puuuuutz...

    no words
    =]

    ResponderExcluir
  4. Gostei da sua narrativa.

    Eu o convido a conhecer o Projeto Cinco Espinhos, blog de críticas literárias em forma de literatura.

    Toda semana, também, garimpamos a Internet à procura do texto que valha a pena de um autor "desconhecido" para publucação no site.

    Comente. Participe das enquetes. Promovemos o debate, precisamos de você.

    Abraços!

    ResponderExcluir
  5. Anônimo9:58 AM

    Doente. Adorei. Achei a sua cara.

    =D

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