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O Fruto

Primeiro eu falava mais do que devia, pois era exatamente isso que eu devia fazer. Me conduzi a um estado de ignorância fingida que de tão bem fingida passou a ser ignorância verdadeira. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante.

De tão bem fingido, ignorei a minha ignorância, incapaz de saber que tudo em mim já era perfeito como podem ser perfeitas as coisas feitas de barro e sopro divino que andam distraídas pelo planeta. E me acreditei errado. Pela palavra, tornei-me imperfeito - comi o fruto da palavra, que me deu a capacidade de enxergar o bem e o mal - Bem e Mal não existem, esse é o grande pecado, a alucinação original de que algo pode existir e ser errado ao mesmo tempo. Não existe errado na existência, errado é não existir.

Entorpecido pelo fruto, tentei corrigir meus pretensos erros calando a minha boca, tão acostumada a falar demais. O problema de acreditar em erro é que também se começa a acreditar em correção, e é impossível corrigir o que nunca foi errado. Fingi ser o que não era (pois o que eu era não podia ser divino, era falho e fraco e humano), e de tão bem fingido, calei mais que a minha boca: calei minha capacidade de falar e me retornar, cego, à ignorância.

Como numa máquina de escrever, bati na mesma tecla mil vezes. O erro já estava lá, pintado na folha, mas eu insisti em bater em outra tecla, repetidamente, com a força que angústia dá, borrando outra letra no lugar da original errada. Por mais errada que fosse a folha original, era imaculada, e a correção só lhe manchou e enfeou. Fiquei manchado e enfeado eu mesmo.

A alucinação do fruto é persistente e contínua, e continuei a ver o erro em mim como algo a ser extirpado, arrancado como uma vesícula cheia de pedras. Agora, meu silêncio era o defeito. Me fingi espontâneo e cheio de coisas a dizer, mas não consegui fingir bem o suficiente. Abrindo a boca, escapava de mim o hálito podre do fruto da Árvore do Conhecimento. Em silêncio, era isolado do mundo. Falando, o mundo preferia isolar-se de mim.

A árvore que era do Conhecimento, não o fruto. Antes do fruto, nada era certo ou errado, tudo simplesmente era. Também não havia nada de errado no fruto em si, mas fomos incapazes de engolir o fruto por inteiro. Tudo era inteiro, antes da primeira mordida. Tudo era completo na sua objetividade. Mas não pudemos engolir o fruto por inteiro. Tivemos que rasgá-lo em pedaços, quebrar com os dentes a sua integridade, digerir nojentamente o que lhe compunha. Daí a ilusão. Do Conhecimento que originou o fruto, criou-se a ilusão.

Como fomos longe! O fruto proibido nos embriagou tanto que nos juntamos para corrigir os pretensos defeitos do mundo juntos, e passamos a dar sentido ao sentido dos outros - com a repreensão de quem não é capaz de olhar para si mesmo de tão embriagado - e nos enganamos de sentido, e fomos no sentido errado, e em vez de matar a ilusão, matávamo-nos uns aos outros. Queimávamos uns aos outros desejando queimar com eles o que estava queimando em nós, nos poucos momentos em que a realidade inicial, o Conhecimento, tentava brotar e dizer que tudo era ilusão.

Chegamos ao ponto de não saber viver sem o pecado. A alucinação foi tão longe que nos perverteu inteiros, e se não há religião, há o corpo que tenta se dizer imperfeito, e iludidos, tentamos curá-lo. Não há cura para o corpo. Não há correção. Não há melhora, porque não existe pecado.

O fruto se revira no meu estômago e tenta sair, tudo o que entra tenta sair - nem sempre consegue, somos todos prisões - e o vomito. Perdem-se os adjetivos, perdem-se os erros, perdem-se os nomes. Ganha-se um pouco de lucidez (o fruto já foi digerido em parte, já corre no meu sangue a maldição de querer nomear tudo como certo e errado, permitido ou não permitido). Minha consciência fica vaga e lenta, e estou absorvido em observar sem nomear o que vejo. O que vejo, aliás, agora faz parte de mim. Regrido a quando era perfeito (por desconhecer a alucinação do imperfeito), e tudo é uma coisa só.

Mas sou homem, e sou fraco, e estou sem alimento. Não conheço nada além do fruto. Me entrego a ilusão, viciado que sou. A fome me faz animal, desesperado por alimento a ponto de pular na jugular de qualquer coisa que passe a minha frente. Vou até a Árvore, tomo do fruto e dou mais uma mordida. Volto a falar mais do que devia.

À espreita, uma serpente me sorri.

Comentários

  1. A ignorância sempre é verdadeira, a ignorância contém a verdade e só conhece a verdade quem é ignorante

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  2. Em alguns momentos eu me perdi, mas há partes que são excelentes, Flá.

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