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Farinha

Estou sendo perseguido. Eu vejo minha sombra e eu vejo minha imagem espelhada nos vidros, e eu sei que isso me persegue. Eu lembro da minha família, ela também me persegue.

O meu futuro me persegue muito. Ele me caça, ele quer me ver morto. Ele quer repetir a história desgraçada de tanta gente que veio antes. Gente que fez rimas bonitas e que trabalhou das oito às seis, e que recebia salário e que se preocupava com o que os outros pensavam.

Viraram todos farinha. A farinha me persegue. A farinha quer me alimentar, quer que eu vire tão pó quanto eles. Não existe forma de fugir do pó, mas dos pós que eu possa ser, que não me torne farinha. Que seja cocaína, que seja glitter. Que seja proibido.

A atmosfera é azul e etérea, nublada com suspeita e ingenuidade. Eu estou escondido em uma casa abandonada, porque estou sendo perseguido. Aqui, debaixo dessa mesa, estou seguro. (Não seguro do que me persegue, mas seguro do que eu penso. É como dormir assustado com um ladrão querendo pular a janela, eu puxo o cobertor o mais alto possível e escondo o rosto. Eu me rendo, eu combino com o ladrão "Venha aqui, roube o que quiser, eu finjo que estou dormindo e você não me mata, e finge que acredita no meu sono e finge que não ouve os meus soluços",)

Eu me obrigo a ficar coberto, eu não posso ser visto. Eu estou sendo perseguido, bolas. O céu está lá fora, e está doido pra me atacar. Ele quer me arrancar pedaços, ele quer que eu ache as estrelas bonitas como todos os mortais acham. Não vou achar, As estrelas são feias.

As estrelas são poucas, elas não são suficientes, elas não me impressionam. Elas mal brilham. Elas não me impressionam. Eu não sou mortal, eu não me impressiono com as estrelas. As estrelas são repetitivas, elas não podem me hipnotizar.

Por não ser mortal me escondo, por não ser mortal me protejo. Estão me perseguindo e querem me matar.

Comentários

  1. Anônimo5:58 PM

    Perfeito.

    Remeteu-me a um certo dia, em que estava esperando o ônibus e senti que sou parte dessa massa maldita dos indesejáveis, que tem a marca do tédio, da rotina. Que tem que trabalhar e sobreviver. Aqueles para quem o amor e o sexo são meras concretudes, como comer, cagar, mijar. Os que não sabem para que vieram.

    Flávio, quando eu crescer (estou com 27), quero escrever como vc.

    Parabéns pelo texto.

    Saulo

    ResponderExcluir
  2. Fernanda11:17 PM

    UAL né. Que medo

    ResponderExcluir

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