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Culpa dela

Lá vem a noiva, a bela noiva.
A noiva que nunca imaginou que uma limousine pudesse ser tão claustrofóbica. O vestido sufocando-lhe as pernas e o corsete obrigando as costelas a fazerem agressivas cócegas nos pulmões - cócegas que não faziam riar, cócegas que lhe feriam. Ela queria mesmo era chamar a mãe, e chorar no seu colo.
Não adiantaria nada, ela já tinha chorado no colo da mãe na noite anterior. A mãe conseguiu acalmá-la e convencê-la de que o nervosismo era natural, obrigatório antes de um acontecimento tão importante na vida de uma mulher.
De uma mulher, só de uma mulher.
Não se pensa no noivo numa hora dessas? Bem, o noivo não devia ter um corsete lhe apertando. É mais fácil manter a calma quando o diafragma não está amortecido.
A noiva nunca ligou muito para o noivo, mesmo. Ela se sentiu solitária a vida toda, não podia se dar ao luxo de dispensar tão incrível cavalheiro, o homem ligeiramente barrigudo mas encarável, com uma feiúra que, na luz certa, passava por beleza. Ele estava ali e a queria. Isso bastava.
Bastava?

Lá vem a noiva, a bela noiva.
A noiva que nunca imaginou que maquiagem pudesse fazer tanto calor. "Ainda bem que existe maquiagem à prova de água", pensou ela enquanto o buço jorrava litros de lágrima que não podia sair pelos olhos.
A noiva que pagou o aluguel do vestido em prestação. O noivo era rico, mas nunca lhe deu muitos presentes. Só alguma coisa que mostrasse como o casamento seria um bom negócio. "Depois do casamento", se iludia a noiva, "eu recupero o investimento".
Lá vem a noiva, a prudente noiva.
Aquela que sabia investir até no casamento. Aquela que sabia que se aprende a amar, e que paixões são perda de tempo. Paixões são coisa de gente carente. Não que ela não fosse carente, mas a carência sabia que nunca seria extinta e sabia que dinheiro não é tão fácil assim.

Lá vem a noiva.
A limousine estacionada a duas quadras da igreja. O noivo se atrasou.
Pela primeira vez, uma emoção direcionada a ele. Raiva. O noivo era cortês, fazia esforço para agradá-la na cama - ela que não fazia muito esforço pra gostar -, era polido e distinto. Pontual. Sempre pontual.
Ela que tinha o direito de se atrasar, oras. Não ele! Ela que era a esperta da história, não ele! Ele era a pessoa disposta a pagar pelo produto "Noiva Perfeita", e ele deveria desempenhar o papel "Marido ideal". O "Marido Ideal" não se atrasa, pombas.

Lá vem o noivo.
E a noiva se frustra. Seria tão bom se ele não tivesse aparecido. Mas apareceu. A limousine ruma para a igreja.
Hora de fechar o negócio. Ela capricha na cara de princesa da Disney. Torce para que ninguém perceba o Nilo que brota do seu buço.

"Eu aceito".

Ela aceitou a mentira de que ele era o príncipe encantado.
Ela fingiu ter vocação pra Cinderella.
Ainda hoje, ela diz que não foi culpa dela.

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