Pular para o conteúdo principal

Moto-contínuo

Duas crianças brincando, a mais nova pentelhando a mais velha, que reclama e faz bico. Segundos de silêncio e de greve de brincadeira rompidos por um cutucão do mais velho no mais novo. Moto-contínuo.

Se eu fosse contar alguma coisa para essas crianças, como se fosse um velho barbudo e sábio de um filme de Hollywood - desses que propagam valores importantes como saber que sabedoria está sempre acompanhada de velhice e barba -, eu ia dizer que tudo o que parece grande e assustador nessa idade vai perder o tamanho com o tempo (o susto talvez continue).

Também diria que não é bom focar no grande, não. O grande só serve para tirar o foco do que realmente tem importância. O estudo, o dinheiro, a vida, tudo é um grande conjunto de grandes porras nenhumas.

Os meninos me perguntariam por quê, e eu diria que é porque o medo das provas na escola vai parecer ridículo em alguns anos (quando se estiver temendo alguma outra prova que também parecerá ridícula depois de provada).

Eu não diria tudo para esses meninos. Tem coisas que eles precisam descobrir sozinhos: que a morte assusta mas não é o pior que se enfrenta, por exemplo. Que um dia, no futuro, quando a vida separar o fictício quadril conjunto que os mantém unidos como gêmeos for separado como um machado arranca as metades de um sicômoro siamês, um dos meninos vai lembrar do outro.

O outro não vai estar morto, só distante. O menino vai chorar de saudades. A morte traz a falta, mas os momentos passados dão coisa pior. A saudade é pior do que a morte, porque transcende a morte. Porque não morre.

E, havendo outra vida depois dessa, a morte poderia ser superada e um reencontro se tornaria possível. Os mortos podem voltar, os momentos não.

Mas pra quê pensar na morte se o seu irmão acabou de te dar um peteleco?

Comentários

  1. Morrer é um tremendo desperdício.

    ResponderExcluir
  2. Fique frio, fiote; se não houver continuação, não há o que temer, pois tudo acaba; se houver, tampouco, porque nada pode realmente te fazer mal. Estás amadurecendo.

    ResponderExcluir
  3. Uau! Um post bem legal de se ler... flui bem, aborda com naturalidade um tema bem profundo, é curto e preciso! Gostei demais... continue escrevendo, acabei de conhecer seu blog! E gostei bastante...
    Acabei de criar o meu... são diversos e os mais variados assuntos. Se tiver vontade, apareça! (http://leioleo.zip.net)
    Um grande abraço.
    Léo

    ResponderExcluir
  4. Oi Flavio. Gosto dos seus textos, viu?
    Abs,

    ResponderExcluir
  5. Parabens meu velho,
    um post bastante emocionante,
    um texto simples e coerente.
    continue assim

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...