Pular para o conteúdo principal

Mea Culpa

Tenho me sentido culpado por escrever pouco. É ótimo confiar na inspiração, na intuição de que algum assunto pode dar texto - mas da última vez que dependi só da inspiração, passei seis meses sem vê-la.

É tipo se apaixonar: quanto mais você depende da outra pessoa, mais provável que ela vá passar as férias em Cancún com alguém que você odeia, enquanto você anseia por um beijo. Depois disso, a gente aprende a não depender tanto assim.

--

Culpa é uma coisa engraçada.

Não sei se pela minha criação religiosa ou o quê, eu sinto que devo dar o máximo e o melhor de mim em tudo que eu faço. Errar, só se for muito sem querer. Errar querendo é fazer maldade e fazer maldade é merecer que façam maldade comigo.

--

Ontem à noite, banheiro da faculdade. Os olhos vermelhos pela irritação da lente de contato - e irritação minha por ter que voltar pra rotina de universitário - tirei a lente de um dos olhos e guardei no estojo. 

Com a visão pela metade, lavei as mãos, sequei com papel toalha e arremessei a bolinha de papel amassado rumo ao lixo. 

Desastre: o papel não acertou a lixeira.

--

O papel não só caiu fora da lixeira, como atrás dela, espremido entre o lixo e a pia. 

Pelo menos eu tentei, certo? Agora era deixar o papel ali e ir embora para a aula. O fato do papel cair fora do lixo, ainda mais num lugar tão difícil de ajuntar, não me torna um vândalo, certo? Eu não sou um depredador de banheiros públicos, certo?

Errado!, disse a minha consciência, essa safada. Já estava quase saindo do banheiro quando a sensação de ser um crápula ficou tão insuportável que me fez dar meia volta.

Me pus de cócoras no chão, cuidando para não sujar as calças com o xixi que perfumava os azulejos. Puxei o lixeiro para a frente com cuidado. 

Me curvei, esticando as mãos para alcançar o papel toalha, e ainda assim não alcancei. Me aproximei mais, tomando o cuidado de desviar a cabeça de um mictório (que estava tão perto que engolir uma bolinha de naftalina era uma possibilidade), fiz a força de um atleta olímpico* e finalmente consegui alcançar! 

Meu pedaço de papel toalha molhado e amassado, meu troféu. Finalmente arremessado corretamente na cesta de lixo.

--

Isso me torna uma boa pessoa, né?

Quer dizer, eu poderia ter recolhido os outros setenta pedaços de papel toalha jogados atrás do lixeiro, mas isso não é minha responsabilidade, certo?

--

Sério, gente. Isso não faz de mim uma pessoa ruim, né?

Maldita culpa.

--

*Fato divertido: Captura de papel toalha amassado é uma modalidade que seria introduzida nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1916, cancelados pela I Grande Guerra, o que acabou obscurecendo esse magnífico esporte. Não fosse por isso, o Brasil não seria o país do futebol, mas sim o país da Captura de Papelzinho.

Comentários

  1. Ana Carolina2:29 PM

    Gente. Eu trabalhava com um gênio e não sabia. Amo seus textos. Mesmo!

    ResponderExcluir
  2. Sinto o mesmo, que a minha inspiração me falha como as notas de 50€ (não faço ideia a quantos reais isso equivale). E essa falta de inspiração é a grande responsável pela decrescente qualidade dos post's do meu blog. De qualquer forma... independentemente da inspiração, escrever, com qualidade ou não, ajuda a exorcisar demónios. E todos os temos. E todos devemos exorcisar. E a perfeição não existe.

    ResponderExcluir
  3. HEUEHEUEHE
    Além de ótimos textos, vc estaria com um pé nos Jogos Olímpicos! hauahauahauah
    A tal da inspiração é foda!
    Ela já me trucidou.. e me sufoca!

    Tô esperando o próximo!

    ResponderExcluir
  4. Anônimo11:49 PM

    A naturalidade com que escreve é impressionante.

    A inspiração está em minha mente, mas me falta em muitos instantes e deixo-a de lado, simplesmente pelo fato de eu não saber me expressar.

    A veracidade dos fatos torna seus textos ótimos, além de você "conversar" com o leitor em seus escritos.
    Gostaria que sua inspiração fosse diária.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...