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Os Sofredores (ou: como Chocolate com Pimenta mudou minha vida)


Eu deveria estar orgulhoso por ser um trabalhador. Um membro da sociedade produtiva. Um bêbado, somente às noites. Em horário comercial, senhor da minha força de trabalho.
Mas como conciliar isso com o fato de Chocolate com Pimenta ser reprisada toda tarde?

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Eu tinha doze anos quando a novela passou pela primeira vez, no horário das seis. Eu e minha melhor amiga - a parede da cozinha - assistíamos juntos enquanto jogávamos vôlei. A parede jogava muito melhor do que eu, e de vez em quando me jogava a bola com força no rosto, mas ainda assim era a única pessoa disposta a perder tempo jogando bola comigo.
Parece draminha, e era mesmo. Eu era o próprio personagem nerd de filme americano: óculos fundo de garrafa, baixinho, gordinho e pobre. Todos os ingredientes ideais para um complexo de inferioridade.
Era uma fase de mudança na minha vida. Foi quando eu comecei esse blog, por exemplo. Logo, logo, eu faço dez anos de blog. Dez anos com quase-ninguém me lendo e eu me sentindo o maior escritor do mundo. Dez anos com um lugar pra depositar a energia criativa que queria existir de algum jeito.

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Mas enfim, eu me sentia um lixo. Renato Russo era meu ídolo adolescente, a única pessoa no mundo capaz de sofrer mais que eu - por isso eu o ouvia, pra sofrer tanto quanto ele. Aí que entrou essa novela.
A Ana Francisca, mocinha da história, era feiosa, pobre e órfã. Já dá pra sacar que eu não era o mais original dos sofredores na hora de me identificar com uma heroína, mas era bem aquilo que meu pré-adolescente se sentia: abandonado, feio e sem valor.
A novela corria como um conto de fadas: a família pobre e bonachona da mocinha a apoiava, mesmo quando ela engravidou de alguém que se aproveitou da ingenuidade da feiosa caipira. A Aninha arranjava um amigo mais velho que estava disposto a casar com ela para proteger sua honra, mudava para a Argentina e mais tarde voltava para a cidade em que era ridicularizada por todos para se vingar.

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Tinha muito chocolate na história. Eu comia chocolate pra burro.

Além disso, eu me masturbava pensando no Marcelo Novaes, que interpretava o Timóteo, um caipira turrão, doce e de braços fortes.

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Acho que cresci com essa fantasia. Um dia eu ia arrancar os óculos do rosto, ir para bem longe de onde eu nasci, e retornar rico e podendo olhar todo mundo que já me humilhou como se fossem pedacinhos de merda.

O legal é que hoje, dez anos depois, eu já parei e voltei a usar óculos, moro bem longe de onde eu nasci (mas morro de saudades de vez em quando), continuo pobre-que-sonha-ficar-rico e olho para as pessoas que me faziam me sentir mal naquela época como se fossem pedacinhos de merda - os pedacinhos de merda mais adoráveis que eu já tive a oportunidade de conhecer.
Gente boba, pobre de espírito e que achava, na própria insegurança, que valia alguma coisa mais do que os outros por ter uns trocados a mais. Hoje eu consigo perceber como o bobo da história era eu, que achava que eles realmente eram melhores do que eu por isso.

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Hoje, acho que valeu muito mais ter perdido a necessidade de que me achem melhor do que os outros do que se eu tivesse ficado rico. Provavelmente, se um dia eu tiver grana - e isso eu ainda quero ter, pelo menos um pouco, pelo menos pra viajar o mundo e poder comprar chocolate sempre que eu quiser - não vai ser por um golpe do destino ou por alguém se compadecendo de mim e despejando grana na minha vida como um passe de mágica.

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Mais do que tudo, hoje eu me acho bonito. Talvez não tenha sido a mudança de patinho feio pra cisne que a Aninha da novela teve, mas gosto de mim.
Continuo torto de tudo, mas achando graça no que eu sou. Aprendi a ser bobo. Aprendi a ser doce. Aprendi que não é um elogio dos outros que vai me deixar feliz, porque minha felicidade vem de mim - é só questão de escolha.

E como eu era feliz vendo aquela novela. Como era bom jogar bola com a parede. Como era bom comer chocolate sem me preocupar.
Como era bom o Marcelo Novaes...

Comentários

  1. Anônimo8:25 AM

    Eu tbm assisti Fla! A unica diferenca entre a gente eh que nunca fui com os pacovas do Marcelo Novais. Confissao: toda vez que eu olho pro nariz dele eu vejo dois algodoes bem gordoes dentro. E me lembra o nariz dum veio da novela Saramandaia...bem essa novela acho que nem seus pais eram nascidos rsrsrs
    E eu leio os seus textos sim viu? Mica Mancada

    ResponderExcluir
  2. eu tbm leio!!!

    e tenho as mesmas impressoes que vc!!!

    preciso ficar rico hahahaha

    ah/// menos marcelo novaes!!!

    sou mais cauã

    ResponderExcluir
  3. ahahahaha...Flavio, seu diabinho!ahahahaha...Sou mais a única pessoa no mundo capaz de sofrer mais do que voce!..ahahahha...

    ResponderExcluir

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