Pular para o conteúdo principal

Por lá!


“Vai por lá!”
Não basta ser desengonçado com meus passos, eu preciso do inconveniente arrepio que me dá na barriga.
“Vai por lá, não siga em frente.”
É dessas coisas que a gente sente. Como se fosse vontade de fazer cocô, mas não é.

“E se eu não for?”
Aí o frio na barriga ganha sentido. Maldita hora em que, pra não me sentir idiota ou louco, pra não pensar que sou um idiota manipulável pelo próprio pressentimento, eu decido não obedecer a sensação.
Aí é assalto, é o pé que torce no meio-fio, é perder o ônibus.

“Vai que dá tempo!”
Aí eu não perco o horário.
“Vai nesse ritmo!”
E aí eu não me atraso.

“Fica quieta!”
Eu digo pra voz, que na verdade é um frio, que na verdade é um aperto, que na verdade é uma coisa estranha na barriga.
“Vai por lá!”
Ela insiste e quem se cala sou eu.
Vou por lá.

Aí eu encontro um bom amigo. Que eu acho dinheiro na rua. Que eu chego bem a tempo de impedir alguma coisa que não deveria acontecer.

“Você é louco!”
(Essa voz vem da minha cabeça, e não é tão ameaçadora quanto a que vem da minha barriga. A ordem de “ir por lá” é sensação, voz que me acusa de loucura é pensamento.)

Mas pensamento não tem vez nessas horas.
São tantos “Vai por lá” que me levam para lugares inesperados (e bons), que eu não me dou mais ao direito de obedecer.

“Você é louco”
(a cabeça repete)

Sim, sou louco. Mas vou por lá.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...