Pular para o conteúdo principal

Das coisas que ficam turvas


Das páginas que amarelam, das folhas que brincam no chão, tudo envelhece e perde-se de corpo. O físico se esvazia, mas não perde a história de seu dever cumprido.

O que as páginas gravaram é perdido das páginas, mas não da tatuagem que fizeram na pele virgem da cabeça de quem leu.

O ar é poluído outra vez depois do trabalho incansável da folha sob o sol para purificá-lo, mas não fosse a folha, hoje morta, não teria sido possível respirar. Não estaríamos aqui, se não fosse pela folha-cadáver que hoje reveste crocantemente o chão.

Das coisas que ficam turvas sobraram seus olhos - ainda pálidos pelo pouco tempo que tem. Não se perdôe de sua juventude, moço. Logo os olhos enegrecem, e aos poucos os cenários não tem mais a mesma cor de outrora - talvez pelo hábito de sempre ver a mesma cor, sempre ali, vibrantes, enquanto nós, imóveis, permitimos que o olhar apague, aos poucos, o seu vigor.

As cores se perdem de dentro para fora, sempre, e então mesmo as páginas recém impressas vão ficando amarelas - não pelo tempo que elas guardam, mas pelo tempo que os olhos carregam.

--

Ainda assim, quando seus olhos ficarem turvos e toda cor for um tom de pastel, serão capazes de lembrar da cor dos meus - assim como os meus guardarão sua cor, viva mesmo quando a própria vida estiver desbotando, com um período e outro de rubrez intercalando a transparência das lágrimas.

E das páginas que guardam nossos olhos, e das folhas que nos deram o ar, a história se completa na nossa finitude e nossa tãopouquice.

O que se amarela e se perde é inevitável, é a resistência o que machuca.

Por isso solto tudo que tento impedir. Que as folhas caiam, que as páginas amarelem. Que meus olhos ceguem, se for o caso de assim ser.

Fica um pouco de tristeza pela história acabada, mas não dor - nossa história não acabou violentamente. Apenas perdemos o viço, meu amor.

Mas guardo seus olhos comigo, em cores vivas.

O resto é inevitável.


-- “A vida segue em frente, quer ajamos como covardes ou heróis. A vida não impõe outra disciplina além de aceitá-la incondicionavelmente. Tudo aquilo para o qual fechamos os olhos, tudo aquilo de que fugimos, tudo aquilo que negamos, denegrimos ou desprezamos é capaz de nos derrotar no final. Aquilo que nos parecia asqueroso, doloroso, mau, pode se tornar uma fonte de beleza, alegria e força, se encarado com uma mente aberta. Cada momento é de ouro para aquele que possui a visão de reconhecê-lo como tal.” - Henry Miller, tradução minha. --

Comentários

  1. Anônimo2:15 AM

    Nunca vou te esquecer...
    Na minha agenda de páginas já amareladas estão,como em um diário adolescente, as folhas secas que juntei do chão e guardei entre as memórias mais queridas...
    Assim sei que mesmo cego posso ainda tocá-las...
    Memórias que quero carregar pelo resto da minha vida...
    Cada beijo foi lindo...
    Cada minuto eterno...
    Cada escrito seu me toca senhor amigo das palavras...
    Estou cego, mas meus dedos perfeitamente esta mensagem....

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...