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Videogame

Minha colega está fazendo voluntariado com crianças que moram numa área de risco ao redor de um depósito de lixo. Querendo puxar papo com um dos molequinhos que estavam brincando de médico com material perfurocortante de verdade (quero ver o seu filho ter um privilégio desse!), ela perguntou:
- Do que você mais gosta de brincar?

O menino respondeu na lata:
- Videogame.

Claro que o menino nunca tinha encostado num videogame em toda a sua vidinha.

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Esse negócio de pressão da mídia pra que um produto seja seu objeto de desejo pega fundo. Eu, pessoalmente, nunca fui daquela crianças que pediam tudo o que viam na TV. Sempre fui, no fundo do meu coração, o mais exemplar pão duro.

Só que ainda assim o marketing massivo faz efeito em mim. Semana passada, ao procurar um bom celular xing ling que recebesse dois chips e durasse pelo menos um mês, comprei um HiPhone.

O celular era igualzinho a um iPhone, inclusive com um logo da Apple brilhando na parte de trás. Lógico, o sistema dele era uma bosta e era mais fácil caminhar 600km para conversar com a minha mãe do que tentar telefonar pra ela, mas pela primeira vez na vida eu senti o que era possuir um objeto de desejo - mesmo que na réplica.

Sabe de uma coisa? Era uma delícia - só que de mentirinha, tipo sonho erótico.
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Meu pai é técnico de eletrônica, e uns dos melhores momentos da minha infância foram quando ele consertava videogames de algum cliente e precisava de alguém para testá-los. Aliás, acabou de cair a minha ficha de que provavelmente os aparelhos não precisavam de uma semana de testes intensos na mão de dois pré-adolescentes (eu e meu irmão).

Era só porque ele queria que a gente pudesse brincar um pouco com aquilo que a gente tanto queria e não podia ter.

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Meu HiPhone durou exatamente 13 dias. Na mão do Zagallo, isso seria uma boa coisa. Na minha mão, foi uma moleza que derrubou o celular com a tela pra baixo.

Aqui jaz o pior celular que eu já tive.

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Há quem diga que é olho gordo que faz as coisas boas estragarem. Eu tenho uma bolsa de gordura debaixo dos olhos, tire seus objetos de valor de perto de mim.

Ainda assim, quem sabe agora que tem um lixão aparecendo o tempo todo na novela o menino do primeiro parágrafo se dê bem. Não é a mídia que faz os objetos serem desejados?

Pois ele tem uma casa no depósito de lixo. Duvido que você tenha uma igual.

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