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A torneira dos insights


Insights podem ocorrer nos momentos mais inusitados. Você está vivendo no piloto-automático e ploink!, subitamente alguma lâmpada se acende no seu cérebro e surge uma revelação que fica gravada pro resto da vida. 

Aconteceu comigo do seguinte jeito: eu, no banheiro de casa, com as mãos estendidas debaixo da torneira, esperando a água magicamente começar a cair.

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Explicando melhor: eu estava trabalhando num shopping center, como vendedor de celulares, ganhando um salário base de R$ Uma Miséria + VT + VR. 

Ainda assim, foi o emprego que melhor me pagou até hoje - consequência de achar a experiência do trabalho em si muito mais interessante do que a compensação ganha por ele. 

Para uma pessoa que chegou a contar moedas para comprar um miojo e dividí-lo em duas refeições distintas, foi impactante poder gastar mais de quinze reais num almoço. Uma pequena e inesperada fortuna.

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A gente se acostuma rápido demais às mordomias. 

Tire um mendigo da rua e lhe dê um cartão de crédito ilimitado, deixando-o frequentar lojas caras de shopping-center por dois dias seguidos. No terceiro dia, ele provavelmente vai dizer coisas como "Essa porcaria de loja não tem uma Gucci decente e ainda serve esse espumante vagabundo? Absurdo".

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O problema de subir de vida é perder o contato com o que tínhamos antes. Depois de começar a ter mais, não é difícil achar que temos todo o direito de ter mais. QUe aquilo que temos na vida não é consequência de uma enormidade de fatores psico-bio-sócio-culturais, e sim mero fruto do nosso esforço.

Nós passamos a nos sentir no direito de ter um carro enorme para andar sozinho na cidade, de exigir que o outro atenda a nossa vontade (já que somos oh-tão-importantes), de ficarmos emputecidos com a falta do nosso sabor preferido de milk-shake na padaria.

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No shopping-center, eu tinha o luxo de uma torneira que se abria automaticamente apenas com a presença das minhas mãos. Não demorou para eu me dar conta que eu estava em casa, com as mãos estendidas, esperando pela água, incomodado por ela não cair sozinha.

Como uma criança mimada que espera o avião de Danoninho guiado pela mãe pousar na sua boca - só que com 23 anos de idade.

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Ainda assim, subir na vida pode ser bacana - desde que o mundo real não vire um desconhecido. Talvez perder perspectiva seja inevitável no processo - mas prometo que, se um dia esse blog me deixar rico (ahan), vou fazer um esforço para não virar um acomodado.

Se eu não conseguir, lavo minhas mãos. Só me recuso a ter que abrir a torneira pra isso.

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