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Papai mandou lhe dar um tiro

Um paciente comum nas clínicas de psicologia é a pessoa que nunca se dá bem em nenhum emprego por brigar com os chefes. Em qualquer lugar que trabalhe, com o chefe que for, aparece um conflito.

Alguns anos de divã mais tarde, a pessoa percebe que a raiva dos chefes vinha de antes. Alguma coisa na relação com o pai criou um padrão de comportamento que se refletiu em todas as relações de subordinação pelas quais a pessoa passou na vida.

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A repressão policial e a intolerância com manifestações que estamos vendo hoje é apenas um reflexo de como muitos de nós fomos educados.

Quem cresce aprendendo a ficar com a boca calada e ouvindo que deve agir de algum jeito sob o argumento de "porque eu mandei!" vai ter apenas esse modelo para compreender as relações entre detentores de poder e os discordantes da opinião que vem de cima.

Foi com a mentalidade de que pais violentos criam filhos comportados que elegemos os governos que fazem das suas políticas públicas um instrumento para reprimir manifestações do povo.

Um povo que se manifesta e que se recusa a seguir o comportamento esperado diante de uma mudança de situação (como o aumento das passagens) não é muito diferente de uma criança que chora e se recusa a comer uma papinha que está quente demais e queimando sua boca.

Sim, é birra - mas é um mecanismo completamente saudável, e não é com porrada que algo que faz mal para a criança vai passar a fazer bem.

A birra e o grito são as únicas armas da criança abusada.

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A dinâmica de poder que vem de cima aparece em muitos lados diferentes dos protestos quanto ao aumento das passagens de ônibus.

Está nos policiais que tem parentes e amigos que vão ser prejudicados com os abusos de poder representados pelo aumento da passagem. Os policiais também são vítimas do comportamento repressivo do governo, mas são usados para reprimir as outras vítimas.
Porque é o dever deles. Porque a ordem vem de cima.
Papai mandou lhe dar um tiro, não podemos fazer nada.

Está nos jornalistas que entraram na profissão por ideologia e que se obrigam a escrever matérias do ponto de vista dos donos do jornal, apesar de isso conflitar com o aquilo que sempre acreditaram.
Porque é o dever deles. A ordem vem de quem pagou o salário.
Papai mandou avisar que quem protesta é vagabundo, não podemos fazer nada.

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Não importa de onde vem o protesto, somos um povo acostumado a cumprir ordens. A família tradicional, idolatrada pelos grupos de extrema-direita, é aquela em que o pai manda e o resto obedece.

A grande surpresa dos protestos em São Paulo foi a revolta do povo. Não estávamos esperando por isso. Estávamos prontos para repetir o bordão de que "Brasileiro não faz nada". Não estamos habituados a dizer "Não, Papai, você está acima de mim mas eu discordo de você".

Alguma coisa parece estar mudando. Quem sabe nossa nação esteja entrando na adolescência.
Ainda somos desengonçados, sem saber quem somos e experimentando pontos de vista na base da tentativa e do grito, mas estamos aprendendo a questionar aqueles que estão com as rédeas do poder.

É hora da ovelha-negra. Papai vai ter dor de cabeça.

Comentários

  1. Anônimo12:47 PM

    ...e que não pare por aqui!
    Belo texto.

    R.B.

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  2. Alguma coisa parece estar mudando. Quem sabe nossa nação esteja entrando na adolescência.

    EXCELENTE METÁFORA...

    ResponderExcluir
  3. Anônimo10:41 PM

    Que se aparentaram..?

    ResponderExcluir
  4. Anônimo10:42 PM

    Houve um... Na terra de...

    ResponderExcluir
  5. Anônimo11:19 PM

    Me de uma razão pra que eu me mate, mesmo sem te conhecer

    ResponderExcluir
  6. Anônimo11:31 PM

    Fico com uma vontade gigante de.me.matar quando sou comparado a animais

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Anônimo9:36 PM

      SE VC SUBIU NA VIDA,DASCARREGA SOBRE MIM TODA SUA IRA,MAS SE VC É IMPORTANE PISA NOS MENOA FAVORECIDOS?

      Excluir

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