Pular para o conteúdo principal

Um assunto espinhoso

Quando uma pessoa olha no espelho, pode olhar muitas coisas.

Pode ver os sonhos que deixou pra trás, as marcas da vida que se transformaram em rugas, o brilho nos olhos que nunca se apagou...

Eu, por minha vez, vejo as minhas espinhas.

--

Li um escritor de autoajuda, uma vez, que dizia que a acne é um modo que a pessoa com vergonha de si mesma arranja para se esconder do mundo.

Por isso adolescente costuma ter tanta espinha. De tanta vergonha que tem, arranja inconscientemente um jeito de cobrir o rosto, pra que ninguém olhe para ele.

Aí ele fica com mais vergonha ainda, nascem mais espinhas, e o ciclo se repete até o dia em que ele morre e reencarna num cactus. Alguma coisa assim.

Nada contra essa interpretação, mas eu já sou adulto, pôxa. Tenho outros meios para me esconder, feito barba, óculos e ausência de vida social.

--

Soluções milagrosas existem aos montes.

Quando você usa um sabonete desses com propaganda na TV, dizendo que secam as espinhas, se dá conta que o sabonete é muito melhor do que a propaganda promete.

Ele não só seca as espinhas, mas também seu rosto inteiro, que começa a descascar, emoldurando seu nariz com casquinhas brancas. Você deixa de parecer um adolescente punheteiro para parecer uma estátua de gesso depois de uma machadada.

Você pode corrigir isso com um pouco de creme hidratante... que te dá mais espinhas.

--

Se bem que meu maior problema nunca foram as espinhas em si, e sim os cravinhos.

Você pode escolher entre não fazer nada com eles e ficar com tantos pontinhos escuros no rosto que fazem parecer que você acabou de fugir de um vulcão em erupção, ou espremê-los e ficar com a aparência de quem lutou contra um pica-pau e perdeu.

Se eu pudesse escolher, trocaria os meus pelos Cravinhos da Suzane Von Richtoffen.

--

De todos os tratamentos para acne que eu já tentei, o que deu melhor resultados foi não fazer tratamento nenhum. Deixar os cravos e espinhas quietinhos, na deles, sem pressão.

De certa forma, minhas espinhas são iguaizinhas a mim. Se ninguém me incomoda, eu sou praticamente inofensivo; sob pressão, eu explodo.

E jogo pus pra todo lado.

--

Não sei o que eu faria se um dia todas as espinhas fossem embora.  Não ia saber o que fazer diante do espelho. No fundo, acho que gosto dessa mistura que meu rosto acabou sendo.

Por um lado, as espinhas de um adolescente. Por outro, as primeiras ruguinhas e sinais de envelhecimento.

Talvez isso seja ser adulto. Ser novo e velho ao mesmo tempo, sem precisar se esconder.

--

Ok, talvez eu não tenha tentado todas as soluções possíveis. Já ouvi dizer que não se masturbar e não comer chocolate ajudam a combater a acne.

Mas quem sou eu pra querer combater aquilo que Deus me deu, né?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...