Pular para o conteúdo principal

Partindo pra briga

Minha mãe, como todas as mães do mundo, tinha um argumento certeiro para me desarmar quando eu brigava com ela:

"Você sempre foi brigão! Só sabe brigar!", ela falava.

Eu, sem saber outra maneira de reagir que não fosse dizer "EU NÃO SOU BRIGÃO!" aos berros, partia pro quarto batendo porta. Até mesmo um brigão precisa de coerência.

Alguns anos de doutrinação cristã depois, eu fui pamonhizado o suficiente para me tornar mais pacífico. Ganhei muitas coisas com isso: menos conflitos, fama de bonzinho e gastrite nervosa.

--

O problema de ser bonzinho é que isso acaba com a sua energia.

A parte de você que briga é a mesma que luta pelo que quer, arrisca coisas novas e faz sexo.

Matando essa parte, tudo isso vai embora.

--

Desocupei o apartamento onde morei por cinco anos essa semana. Isso significa que precisei lidar com a imobiliária.

Pra quem não sabe, imobiliária é um lugar que negocia imóveis e representa Satanás na Terra.

O processo de vistoria foi cruel. Por mais que eu tivesse recrutado meus amigos para pintar as paredes e beber cerveja (não necessariamente nessa ordem), o agente decidiu que o apartamento precisaria ser todo repintado. Partes do piso, o armário do banheiro e todas as torneiras da casa também.

Aparentemente, eu tenho os hábitos de moradia de um diabo da Tasmânia.

--

Quando o laudo da imobiliária chegou, o valor do fundo de conservação do imóvel estava muito abaixo do esperado, e o preço orçado para os reparos no apartamento estava próximo da peruca do Donald Trump.

Me revoltei. Nunca fui de calcular minúcias financeiras, mas minha parte brigona surgiu, como um braço de criança na jaula de um tigre.

Foram tardes na frente do computador, somando cada centavo pago e pesquisando cada direito que eu poderia exigir. Quando terminei, tinha uma papelada gigante que comprovava que os cálculos deles estavam errados.

Eles iam conhecer a minha fúria. Cada segundo gasto no telefone ouvindo a moça da imobiliária dizer que eu calculei errado seria cobrado em sangue, e a revanche se estenderia até a oitava geração.

--

Estava na sala de espera da imobiliária como um soldado que se prepara psicologicamente para a guerra. Nunca fui de fazer barraco, mas hoje seria o dia. Eles iam ver com quem estavam mexendo.

Cheguei confiante, calmo, sorridente.

Botei a papelada em cima da mesa explicando cada direito que eu tinha, pronto para explodir a qualquer momento.

A moça da imobiliária analisou os gastos, me olhou nos olhos... e disse "OK."

"OK." A filha da puta não se deu nem ao trabalho de conferir se meus cálculos estavam certos e já foi aceitando a minha proposta.

Se a parte que briga é a parte que transa, essa foi uma broxada das bravas.

--

O que importa é que agora quem vai gastar dinheiro é a imobiliária, e não eu. Com tempo, vontade de brigar e jeitinho, se consegue qualquer coisa.

Até uma resposta para a minha mãe:
"Você só sabe brigar", ela diz.
"Mimimi, você só sabe brigaaaar", respondo eu, com voz de criança, e continuo brigando.

Porque maturidade é uma coisa que se adquire.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...