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Andadores e Muletas

Numa das minhas fotos preferidas de infância, eu, ainda um bebê gordinho, estou de óculos de sol, apoiado num trambolho de plástico e aço com rodinhas. Desengonçado, os braços esticados para frente, eu parecia o Godzilla fazendo fisioterapia antes de andar sobre Nova Iórque.

Foi assim que eu, e muitos da mesma geração, aprendemos a andar.

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Ano passado foi proibida a venda de andadores infantis no Brasil. O aparelho, que teoricamente ajudaria os bebês a aprenderem a caminhar, prejudicaria o processo de aprendizado da criança.

Pendurada no aparelho, a criança não usaria corretamente as próprias articulações e começaria a andar de uma maneira que não seria saudável - e lhe traria malefícios pelo resto da vida.

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Sabe quando você sofre um acidente e depois não lembra do que aconteceu? Nosso cérebro tem uma tendência a bloquear experiências que nos tenham feito sofrer demais.

Acho que é por isso que esquecemos de quase tudo da nossa infância.

Tudo é ridiculamente difícil. Você nasce desengonçado, sem conseguir nem pendurar a cabeça em cima do pescoço direito. Um ano depois, já precisa estar caminhando, com centenas de músculos e ossos em coordenação perfeita.

Sem o apoio de um andador, você tomba e levanta, e tomba e levanta, e tomba novamente, como um bêbado tentando andar num chão de gelatina.

Mas o esforço compensa: um dia você pendura a coluna no quadril do jeito certo, chacoalha os braços tentando segurar o nada, imita o Garrincha com as pernas e consegue dar seus primeiros passos.

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Estar cercado de proteções não é benéfico pra ninguém, seja um adulto ou um bebê.

Amadurecer exige que não tenhamos um suporte que nos impeça de usar nossas próprias pernas.

Por isso tanta gente reclama de solidão: não é que faltem pessoas no mundo, é que esses amores só vão aparecer quando você realmente aprender a andar com as próprias pernas.

Clichê, mas enquanto você precisar de alguém que lhe dê suporte para caminhar na vida, você não vai ter ninguém. Os andadores estão proibidos.

Depois que souber andar, emocionalmente, com as próprias pernas, fique à vontade para caminhar ao lado de quem quiser. Sem muletas nem andadores, quem sabe até consigam correr.

Vai ser tão natural quanto dar um passo.

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Em dez entre dez infâncias, a cena é igual: a mãe sai para trabalhar e a criança se descabela, pensando que a mãe nunca mais vai voltar e que ela nunca mais vai ser feliz como era antes.

Meia hora depois, já está batendo as panelas da casa da avó e achando isso a coisa mais divertida do mundo.

No dia seguinte, a mesma choradeira: a mãe foi embora, adeus felicidade. “Criancinhas bobas”, a gente pensa. Mas é levar um pé na bunda que a gente chora na porta do mesmo jeito: “Ela foi embora, eu nunca mais vou ser feliz!”.

E o pior é que fazer batuque em panela perde consideravelmente a graça com o passar dos anos.

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Para a criança, a gente entende fácil que aquilo faz parte do processo de crescimento. “A mamãe vai embora mas volta, não se preocupe!”, a gente diz, achando aquela dor imensa da criança uma bobagem.

Depois de crescidos, a gente perde um pouco a perspectiva: “Mas como é que eu vou viver sem ela?”.

Bom, se você não sabe, agradeça a vida. Ela está lhe dando uma oportunidade de saber..

Afinal, andadores estão proibidos. É hora de usar as próprias articulações.

Comentários

  1. Gustavo Jreige9:15 AM

    Tava precisando desse texto! :)

    ResponderExcluir
  2. Muletas, familia...
    Como sera andar sem...
    Me questionei recentemente sobre isso e hoje meus passos parecem mais firmes realmente. Qro parabeniza-lo pelo post e pela sagacidade de suas palavras

    ResponderExcluir

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