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Tudo bem

Primeiros dias de aula são sempre um desafio, não importa se você é professor ou aluno. 
Quando preciso trabalhar com alguma turma nova, procuro começar com alguma coisa mais descontraída, algo que faça os alunos não me odiarem tão de cara.

A dinâmica era fácil: Cada pessoa ficava em silêncio por cinco segundos na frente da sala toda, e cada um escreveria a primeira palavra que lhe viesse à cabeça.

Foi divertido. Os alunos ajudaram a quebrar o gelo, e um por um, escutaram da sala quais as primeiras impressões que tinham passado.

Chegou a minha vez - eu gosto de participar também - e os alunos foram dizendo suas impressões da maneira que eu já esperava. "Palhaço", "espontâneo", "louco", "engraçado". 

Nenhum deles falou "ditador intolerante", que era o que eu mais temia. 

A última aluna da roda ficou reticente em contar o que tinha pensado de mim. 

"Posso falar mesmo, professor?"

Eu disse que podia.

"Assim que eu entrei na sala, eu te achei triste e cansado."

Filha da mãe.

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Ela estava certa. As coisas não tem sido particularmente fáceis ultimamente, mas eu não imaginei que isso estivesse tão estampado na minha cara a ponto de qualquer um perceber.

Até porque eu sempre me vi como um campeão paranaense de fachada, capaz de disfarçar com uma piada e uma careta a pior das emoções - mesmo porque quem tem a tendência de conviver com emoções conturbadas aprende a não ficar demonstrando isso o tempo todo. Ninguém se interessa e você vira um chato.

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Talvez o maior problema de ser sensível é que a tristeza é vista como uma coisa a ser corrigida.

Nada pior para uma pessoa dada às emoções do que ser vista chorando e alguém tentar fazê-la parar.

Nem sempre a lágrima é um defeito a ser corrigido. Às vezes ela é só higiene.

A tristeza também, nem sempre é uma coisa ruim.

É possível gostar de estar triste, de vez em quando, se você souber que isso é um processo de decantamento da bosta toda que você andou respirando e que isso faz parte de conseguir ter energia suficiente pra sorrir sinceramente no resto da sua rotina.

Eu gosto de ficar triste às vezes. Uma parte de mim sempre está triste, assim como há uma parte sempre pronta para rir sem motivo.

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Com o tempo eu fui perdendo a vergonha de me expôr emocionalmente.

Música, por exemplo, me derruba feito uma tijolada no pescoço. Já desisti de segurar o choro no ônibus quando toca uma música triste. E daí que vão olhar? A Dolly Parton tá cantando sobre o casaquinho que a mãe dela costurou, pôxa vida.

Não vou me censurar. Que pensem que eu levei um pé na bunda, ou que eu tô com conjuntivite.

-- 

Chorar e rir, no fundo, são o mesmo mecanismo. Alguma coisa te pega te surpresa, te provoca alguma reação emocional, e seu corpo lida com isso por chacoalhar o diafragma. A surpresa passa e essa energia toda que surge não te mata, porque vai embora.

A única diferença é que chorando você solta lágrimas e rindo você grunhe feito um porco.

Por isso que os comediantes costumam ter depressão, ou as pessoas mais tristes são as que mais dão risada. 

É só uma maneira de botar pra fora aquilo tudo que se acumula do lado de dentro.

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Por isso que nenhum dos alunos estava errado nas impressões que teve de mim. Sim, eu sou palhaço, sou meio louco e sou espontâneo. E ainda assim, naquele dia, estava cansado e triste. 

Sem problemas! Depois eu tiro uma soneca e escuto uma música que me faça sorrir, e isso passa.

Enquanto isso, está tudo bem.

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