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Jogos de Memória

Eu ando muito esquecido.

Pego os óculos, desço as escadas, deixei as chaves lá em cima. Subo as escadas, procuro as chaves que eu não sei mais onde coloquei. Desço as escadas. Com pressa, porque preciso ir ao mercado antes que ele feche.

Subo de novo, porque dessa vez foram os óculos que ficaram lá em cima.

Corro para o mercado. O que é que eu ia comprar mesmo?

--

Não era pra ser tão ruim.

Bem criança, já adorava brincar de jogo de memória. Passava o dia virando cartas de baralho de duas em duas, marcando mentalmente as que eu já tinha virado para acertar as que combinavam e vencer o jogo.

Com tanto treino, não era pra eu estar com a memória falhando aos vinte e cinco anos. E aqui estou eu, com mais lapso que a Faber Castell.

(desculpa)

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De uns tempos pra cá, muita gente tem aparecido no consultório reclamando de falta de memória. Gente de todos os tipos: jovens, adultos, estudados ou não.

Se estamos tão mal de memória, do que será que precisamos tanto esquecer?

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Para uma pessoa com Alzheimer, as memórias que ficam quando as outras vão embora em geral são as mais antigas: o nome da mãe, as ruas em que se brincava na infância, os irmãos queridos que hoje se foram. 

Realmente, nunca vi ninguém reclamando que estava tentando lembrar do nome da professora por quem foi apaixonado no primário e não conseguiu.

As memórias mais doces, que guardamos com carinho e afeto, parecem sempre estar lá, mesmo quando tudo mais vai embora.

Talvez essa seja uma pista importante: algumas coisas são importantes demais para esquecermos. Ainda assim, elas costumam ser aquilo que nós menos lembramos.

Atolamos o cérebro de informação porque não estamos mais lembrando do que está no coração.

Esquecemos o nome de um cliente porque há muito tempo não lembramos de telefonar para aquele velho amigo.

Esquecemos de buscar os filhos no colégio porque faz anos que não paramos para lembrar dos nossos próprios tempos de estudante.

Precisamos esquecer porque perdemos o hábito de lembrar.

--

Não é uma questão de ficar preso ao passado.

A vida é como um jogo de memória: só faz sentido continuar jogando se você sabe por onde já passou.

Não faz sentido batalhar oito horas por dia se você não souber ligar esse esforço àquilo que você viveu e que te fez decidir fazer isso. 

Só vale a pena estar no presente se a caminhada do passado até aqui fizer sentido. 


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Sugiro um exercício de memória diferente: em vez de ficar horas preenchendo palavras cruzadas porque o médico mandou, que tal procurar aquele sabor de sorvete que você adorava quando era criança?

Que tal passar pela escola em que você estudou na adolescência e tentar lembrar o lugar exato do seu primeiro beijo? E de como você chorou quando levou o primeiro fora?

Que tal passar meia hora cantarolando todas as músicas que lhe vierem à cabeça e saborar as memórias que elas trazem?

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Pode parecer bobo, mas eu prometo que não é.

A escalação do time de futebol que você torcia quando tinha onze anos, o motivo do soco que você deu no seu vizinho quando tinha nove, o caminho que você fazia para voltar da aula aos quinze, essas memórias são justamente a base das memórias que você tem hoje. Foi em cima delas que você construiu quem é.

É pela avenida do ontem que caminhamos hoje para chegar até o futuro. Tendo essa base firme, não vai ser preciso esquecer todo o resto para lembrar do que é realmente importante.

E, sabendo disso, qual é o problema de esquecer os óculos em casa?

Comentários

  1. Anônimo12:49 AM

    Muito bom ler isso justo hoje que eu lembrei de você. É sempre uma viagem tão boa ler os teus textos, nos faz refletir muito.
    Jogo de memória nunca foi meu forte, eu sempre achava que o leão-marinho e o rinoceronte eram a mesma coisa. Eu sempre lembrava onde eles estavam, mas nunca conseguia juntar os certos. Ou eu tinha um problema cognitivo, ou os desenhos eram muito mal feitos. Mais provável a primeira situação.
    Se a vida for mesmo um jogo de memória, deveríamos ter o costume de toda vez que fizermos um acerto, deixar uma das peças com outrem. Assim cada um tem uma lembrança daquele momento.

    Saudades de você, espero que nossas vidas se cruzem de volta por aí.
    Abraços

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