Pular para o conteúdo principal

O novo hábito

Ele não estava feliz e não aceitava mais continuar desse jeito. Formal demais, trabalhador demais, obcecado demais. Não era possível ser a mesma pessoa e ainda assim ser uma pessoa.

Decidiu mudar de hábitos.

--

E com um pequeno novo hábito, se permitiu viver e experimentar coisas que nunca tinha imaginado.

Como podia um novo hábito mudar tanto uma pessoa?

Pois ele mudou. Se desprendeu dos bens materiais.

Vendeu a televisão, depois o carro. Depois já não tinha quase nada. 

Não precisava de muito para viver - era um homem com um novo hábito.

--

Caminhava pela cidade toda, não importava o horário.

Era como se tivesse muito mais coragem do que antes.

Seu corpo também mudou: perdeu peso, afinou o rosto.

Deixou a barba crescer. Até o sorriso estava diferente.

----

Tinha muito mais energia! Era como se algo lhe dinamizasse e lhe desse coragem na vida.

Aprendeu a não deixar nada engasgado. Pedia o que queria sem vergonha nenhuma. Começou a se impôr, até se meteu em algumas brigas.

Se gostavam dele ou não? Isso não importava mais.

Perdeu o preconceito social. Fez novos amigos que seriam impensáveis na sua vida anterior.

Como um Jesus moderno, andava com todos os tipos de pessoas.

Parou de frequentar lugares importantes. Qualquer rua era capaz de fazê-lo encontrar prazer.

--

Viu que aquilo que precisava na vida era muito barato.

Seu novo hábito lhe deixava feliz. E como era bom ser feliz!

E ele queria mais e mais daquilo. A vida não estava mais vazia. Estava cheia de prazer.

--

Tudo isso por causa de um pequeno novo hábito: fumar crack.

Que bênção!

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...