Pular para o conteúdo principal

Amigos artistas

Abençoado é aquele com amigos artistas.
Sou desses. São vários, menos ou mais talentosos, quase todos precisando de público, com fome de aplauso, querendo a certeza de não estar falando para as paredes.

Sabe aquilo que tanto falam do Facebook, de que as pessoas hoje vivem para ganhar likes?
Os artistas sempre foram assim. Sedentos de atenção e (os melhores, pelo menos) em dúvida de se o que fazem tem algum valor.

--

Para apoiar um amigo artista, tenho duas regras.

A primeira é: apoiar sempre.

Se eu der de cara com um texto seu, ou uma música, ou uma foto, e admirar seu trabalho, você vai ganhar um elogio.
Mesmo que eu já tenha te elogiado mil vezes. Mesmo que eu não te conheça e fique sem jeito. Mesmo que eu não goste de você. Mesmo que você já seja elogiado muitas vezes.

Já fui chamado de paga-pau muitas vezes por isso. Tudo bem, bons paus merecem ser pagos.

É desse jeito:
Se é bom, eu aplaudo.
Se é médio, eu elogio o que eu gostei.
Se é fraquinho mas esforçado, eu elogio mais ainda e digo que quero mais.

Quem trabalha com arte sabe a diferença que faz um elogio na hora certa.

--

A segunda regra é: não aplaudir forçado.

É desconfortável, é difícil, mas eu não vou te elogiar só porque você tá esperando confete.

Aplauso é presente, e só deve ser dado com amor no coração.
Confete não merecido apodrece um artista por dentro.

Me peça um rim, mas não me peça likes.

--

História:

Uma conhecida minha decidiu ser poeta. O pai bancou a edição do livro. Até alguns autógrafos ela deu. 
Principalmente para tias e amigos, a fortuna dos escritores iniciantes.
Mas escrevia bem, a moça. Não era nenhum Michel Temer, mas quem é, né?

A encontrei entre amigos, num bar. Me alcançou uma folha de papel com um poema. Li, atento. Nada de Uau!, mas bonito.

O resto da mesa distraído em outras conversas, ela me fuzilou com a pergunta:
- O que você achou?

Fui pego de surpresa.
- Achei... bom. - e sorri, o menos amarelo que pude.

Ela me direcionou um olhar de raiva. Voltei a dar atenção ao assunto da mesa.

--

Meses mais tarde, a encontrei, bêbada. Ela me confrontou.
"Por que você me detonou?".
"Como?"
"Você detonou meu poema na frente de todo mundo! Eu te admirava tanto!"

Povinho sensível e de expectativas altas.
Ouvir um elogio um pouco mais modesto do que se esperava já é ser detonado. Pessoas inseguras são recheadas de TNT.

--

Não me retratei. Semanas depois, vi um outro poema dela no Facebook.
Curti. Comentei elogiando. Enviei mensagem dando parabéns.

Não consigo fugir da primeira regra.

--

Não concordo com o ideal do artista com fome, rejeitado pela sociedade e azarado no amor, que precisa ser pária em tudo pra ter valor em sua arte. Mas também não aceito o contrário, Deus me proteja da bolha.

Você caiu no mundo com a ambição ousada de ser poeta? Com a loucura de querer soltar a voz? Com a insanidade de desejar pisar no palco?

Engrosse a sola do pé, meu amor. A caminhada há de ser dura. É necessário ser firme.

Se a sua arte está associada à crítica ou ao elogio, ela não está vindo de dentro o suficiente. A melhor arte é aquela que você não consegue evitar, mesmo que ninguém vá gostar.

Melhor assim. Afinal, aplauso fácil não tem graça. Aplausos de mãos calejadas valem mais.

Estarei por aqui, calejando as minhas, para poder aplaudir melhor. Só não conte com isso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...