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Eleições

2026. Eleições presidenciais no Brasil. Segundo turno.

De um lado, Ângelx Guarani-Kaiowá Rodrigues é a candidata da esquerda. Ângelx ganhou notoriedade com seu livro "Feminismx sem gênerx", mas seu verdadeiro contato com o público foi com sucesso de seu Tumblr "Apenas melhore".

Seu programa de governo inclui a inclusão do pós-modernismo no currículo escolar e a regulamentação do crime da gordofobia.

Do outro, General Digão Maromba representa a direita. General Digão ganhou proeminência através das redes sociais, onde compartilhou um vídeo de si mesmo ateando fogo a um mendigo.
"Se fosse gente que preste, não tava na rua", dizia no vídeo, e virou herói.

Digão defende a separação das escolas entre meninos e meninas (mas só com professoras mulheres, professor homem é viado) e a obrigação de rezar o Pai Nosso antes de todas as aulas.

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Argumentos muito fortes, dos dois lados:
- Vocês são coxinhas! Reaças!
- Fica quieto, socialista de iPhone! Esquerdalha!

Agressões fortíssimas:
- Não passarão! Não passarão!
- CHOLA MAIS! CHOLA MAIS!

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Com as polaridades intensas, o problema não é ser extremo demais. É não ser extremo o suficiente.

A mídia, partidária, carrega na pressão:
"GENERAL DIGÃO TRAI SEU ELEITORADO E DIZ: 'EU COMERIA UMA NEGRA'. Seria um comunista?"
"Ângelx Guarani-Kaiowá recusa beijo de língua em lésbica: verdadeiramente esquerdista ou farsa do capital?"

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Todos devem escolher um lado. Todas as notícias do Brasil se resumem à essa divisão.

Até uma manchete como "CRIANÇA SOBREVIVE A AFOGAMENTO: Levado pelas águas, menino de sete anos consegue voltar à praia a tempo de ser socorrido" pode gerar discussões intensas.

"Parabéns, criança! Quem quer se esforça e consegue! Isso é mérito! DIGÃO PARA PRESIDENTE!"

"Se a escola pública fosse mais eficiente, essa criança não estaria sem supervisão! Lacra Ângelx Presidentx!"

Enquanto outra criança morre afogada mais à frente.

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A competição foi tamanha, a briga tão acirrada, que tudo explodiu.

Num movimento ousado, General Digão Maromba e seus seguidores decidem invadir um comício da adversária. Dezenas de homens, megafones na mão, movimentação nervosa.

"Morre, vagabunda! Esquerdista tem que morrer!", cantam.

Os eleitores de esquerda, assustados, agem rápido. Tiram os celulares do bolso e mudam furiosamente suas fotos nas redes sociais, com filtros dizendo "Estamos com Ângelx!".
Em questão de segundos, textos de quatorze parágrafos já problematizavam a invasão do comício citando Engels.

Enquanto isso, um invasor mais exaltado sobe no palanque.
Furiosamente, joga gasolina no corpo da candidata de esquerda e ateia fogo a ela, imitando o gesto de seu ídolo com o mendigo.
Ângelx grita por socorro, mas seus seguidores precisam fazer alguns questionamentos antes de tomar uma atitude.
"Como podemos nos focar no problema de uma só pessoa, se tantos em nosso país passam fome?"
"E o desastre ambiental de Mariana, que é de escala tão maior que tudo isso? Egoísta! Tira o olho do umbigo, sua privilegiada!"
E a mulher queimando.

A única demonstração de carinho veio justamente de Digão, que, com dó, começou a pisotear o rosto de Ângelx tentando apagar o fogo. Pensou pouco. Com o coturno pesando a chumbo, acabou por assassinar a oponente por traumatismo craniano.

Não teve tempo pra se arrepender. Seus próprios seguidores começaram a lhe atirar pedras, gritando:
"Morte humanizada é o caralho, bruxa tem que morrer queimada!"
"Frouxo! Viado!"
"Se gostava tanto, leva pra casa! Vai pra Cuba!"

Morreu também, apedrejado até a morte.

Dois traidores, dois mártires.

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Sem candidatos, a eleição demorou para acontecer. Por uns meses, ficamos sem governo.
Há quem diga que, nesse tempo, o Brasil melhorou.

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