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O Gambá

Essa é uma história de vingança.

Começou no domingo. Apareceu um gambá morto na calçada na frente de casa.

"Vou ter que tirar essa merda daí, mas sem chance que vou fazer isso agora."
Procrastinei. Ao contrário da vida, a morte pode esperar.

Saí de casa e passei um tempo me convencendo que não ia ser tão nojento assim tirar o bicho de lá.

Mas ia sim. Voltando pra casa, encontrei uma surpresa.
Um cachorro cagou no gambá.

Além de morto e na sarjeta, o gambazinho estava literalmente na merda.

"Lei da atração", pensei. "Essa é uma alma afim."

Adiei o serviço novamente. Não tinha estômago pra catar o gambá morto naquele momento.

--

Mais tarde resolvi encarar o problema e tirar o bicho dali de vez.

Peguei dois sacos de lixo grandes, forrei a mão com sacolas de supermercado, segurei na mão de Deus e fui.

E, milagre! O gambá sumiu.

--

Algum dos meus vizinhos era uma pessoa especial, iluminada, divinal, com fetiche por necrofilia de gambá, alguma coisa assim.

De tão feliz, quase saí pela vizinhança oferecendo chocolates, flores e sexo oral como agradecimento.

--

Corta pra hoje. Quinta-feira.

Alguém comenta comigo de um fedor característico vindo da rua.
"Acho que tem um gambá morto ali", disse o alguém.

Eu não quis acreditar. Que onda de morte de gambás é essa no meu bairro, gente?

Mas não era uma onda. Era o mesmo gambá, arrastado até a floreira alguns metros pra frente de onde o corpo estava.

O mesmo maldito gambá cagado, agora com quatro dias a mais de sol e chuva na carcaça pra feder mais gostoso.

QUEM DIABOS CUTUCA UM GAMBÁ MORTO SÓ PRA LEVAR ELE PRA UMA FLOREIRA DOIS METROS ADIANTE?

--

Eu nunca me senti tão conectado a uma pessoa que eu não conheço quanto estou agora.

Essa pessoa, essa pessoa que escondeu o gambá morto pra me fazer cutucar um defunto apodrecido, essa é uma pessoa que eu vou virar amigo.

Eu vou virar íntimo dessa pessoa. Eu vou frequentar a casa dessa pessoa.
Eu vou ser convidado pra ceia de Natal na casa dessa pessoa.

E vou trocar o peru da ceia pelo corpo do gambá numa bandeja.

--

Não, eu vou me aproximar dessa pessoa. Trazer felicidade pra vidinha miserável dessa pessoa.
Apresentar o grande amor da vida pra essa pessoa. Ser padrinho de casamento dessa pessoa.

E enfiar o gambá dentro do buquê.

Botar o focinho do gambá como enfeite do bolo.

Fazer o gambá de travesseiro na cama da noite de núpcias.

--

Eu vou perseguir essa pessoa até ela morrer de remorso por ter escondido meu gambá.

Quando ela morrer, quando ela estiver sendo enterrada, eu vou jogar o gambá em cima do corpo dela.

Então, e só então, eu vou poder perdoar.

--

Agora cês me dêem licença que eu tenho um gambá pra ajuntar.

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