Pular para o conteúdo principal

Poetas

Não suporto poetas
Eles e a sua impressão de que tem algum talento
De que sabem falar de amor como ninguém
Sua insistência de falar de amor
como se não houvesse outra coisa pra falar no mundo

Não suporto poetas
E sua mania de achar que são especiais
São intensos! Bebem uísque!
"E nossa, semana passada eu quase morri por ela"
São praticamente bueiros
de tão profundos

Não suporto seus esquemas
de rima forçada
A-B-A-B-A-B-A
Seu abandono de sílabas importantes
pelo bem da métrica
A necessidade de cortar
as frases
pelo meio
para ficar bonito
no papel

Não suporto poetas
sustentados pelos pais
que sentem experientes
e profundos e acima dos outros
Esses são os piores
Eles mostram
- MOSTRAM! -
as atrocidades que escrevem
E ainda perguntam
"Que achou do meu poema?"
Para você dizer
"olha, que coisa incrível
é um absurdo que você esteja trabalhando no Banco do Brasil"

Não suporto poetas
Que se acham os primeiros
a falar sobre os assuntos batidos que escolhem
Como se só eles tivessem pensado naquilo em toda a história do ser humano
Como se a sua perspectiva sobre saudade fosse original

Não suporto poetas
que não tem vergonha do que escrevem

Não suporto poetas
porque mesmo num mar de escrita ruim
os malditos acertam de vez em quando
e dizem em duas linhas o que uma novela não soube dizer
infinito enquanto dure, minhas duas mãos quebradas
e largam num pentassílabo a força de um soco no queixo

Não suporto poetas,
eu nunca aprendi a rimar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...