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Estrutura

Você está no pior momento da sua vida.
Nada parece ter sentido.

O desespero é o maior assassino de preconceitos, e você toma coragem para marcar uma sessão de terapia. Pior não deve ficar.

Nervoso, ansioso e um pouco contra a vontade, você ocupa a poltrona que lhe apontam e olha pro desconhecido à sua frente como quem diz "Por favor, me ajude a não precisar mais vir aqui".

E o filho da puta do psicólogo não fala uma única palavra, como se estivesse tirando sarro da sua vulnerabilidade naquele momento.

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Muitos terapeutas fazem isso, do silêncio desde o começo, como uma técnica terapêutica.

A sua maneira de lidar com aquele desconforto inicial, a sua disposição de falar, tudo passa por aquele começo silencioso de uma sessão. É horrível, mas funciona - pelo menos em alguns casos.

Eu não costumo agir desse jeito. Sim, eu acho importante que o paciente peça claramente pelo que precisa. Mas será que vir até o meu consultório já não é uma maneira de pedir ajuda?
Ou ainda, será que deixar uma pessoa sozinha com aquilo que ela te procurou para ajudar a lidar é o que a gente deveria fazer, como profissional da escuta?

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Ir para a terapia é lidar com o próprio não-saber.

Ser terapeuta é lidar com o próprio não-saber, com o não-saber do outro, e com o não-saber sobre o como lidar com a mistura dos dois.

"Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana", disse Jung, cunhando a frase que todo psicólogo tem gravada na caneca.

A incerteza é uma característica humana e é impossível que ela não apareça numa relação terapêutica. Ainda assim, no começo da carreira de um psicólogo, a gente sente um certo pânico e se apega à teoria com toda a força. "Como assim só ficar na frente de uma pessoa e ver o que acontece? Quero dominar a técnica, cacilda!"

Mas a sugestão do Jung não é um pedido para deixar a técnica de lado, é um "Colega, larga de ser besta. A técnica é um canivete suíço que serve pra muita coisa, mas primeiro você vai ter de se meter no meio do mato escuro para saber qual ferramenta usar".

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Nem sempre nós terapeutas sabemos qual ferramenta usar.

Algumas pesquisas (não acredito que eu vou fazer citação científica num textão de Facebook, mas lá vai: Cooper & Norcross, 2015) indicam o quanto, na maioria das vezes, os psicólogos tem uma ideia muito diferente do paciente sobre o que foi importante na terapia.

Pra evitar guiar a sessão para um lado que o paciente não julgue importante, a gente cai no perigo de se omitir e deixar que ele faça o serviço por conta. Outro erro. A mesma pesquisa demonstra que a maior parte dos pacientes prefere uma sessão mais estruturada pelo terapeuta.

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Eu tenho ímã pra pacientes silenciosos. Até meus colegas costumam lembrar de mim quando tem de indicar alguém que é muito tímido e fala pouco.

De novo, se a gente não sabe exatamente o que está se passando na cabeça do nosso paciente, como julgar alguém silencioso como alguém desmotivado?
E, pior, como julgar alguém desmotivado como alguém menos merecedor de tratamento?

Para a sessão com esses pacientes mais quietos funcionar, no começo, me baixava a Marília Gabriela cruzada com o Silvio Santos e eu fazia show de variedades com os meus pacientes.
Cada pergunta era espremida até a última gota de suco.

O bom é que qualquer pergunta pode ser desdobrada horrores, olha:
"Como você está?"
"Bem."
"Como é estar bem?"
"Ah, é... é uma coisa boa"
"E com que frequencia você se sente assim?"
"Ah, direto..."
"Em que momentos você não se sente bem?"
"Ah, varia..."
"Nesse momento, é importante para você falar a respeito disso?"
"Ah, acho que é..."
"O que tem mais importância que isso para você agora?"
"Ah, não sei..."

E aí, no final da sessão, a pessoa vira pra você e fala:
"Caramba, eu acho que eu nunca me abri tanto assim com alguém na minha vida."

E você vai dizer que essa sessão não funcionou?

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Com um pouco de acolhimento, atenção e carinho, chega uma hora em que as pessoas começam a se abrir mais e a trazer mais as suas próprias questões. Aí é importante saber quando dar um passo pra trás e deixar que o silêncio corra.

Um bom psicólogo tem que saber fazer malabares (imagina que louco se eu terminasse a frase aqui) com as seguintes coisas:

1 - Um arsenal de possibilidades de trabalho para cada pessoa;
2 - Confiança e capacidade suficiente para deixar o silêncio falar e causar angústia quando for preciso;
3 - Atenção para perceber quando permitir que a angústia corra solta e quando tentar acolhê-la;
4 - Humildade de se colocar à prova e permitir feedback do paciente;
5 - Aceitar que mesmo com feedback a gente pode sair sem saber muita coisa.

E, pelo menos no meu caso,:
6 - De vez em quando aceitar que CARALHO DE ASA, EU NÃO SEI NADA NESSA VIDA.

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No fim das contas, tudo fica na conexão. Na sensação de qual é o passo que você pode dar e no espaço que você pode deixar vazio para que venham até você.

A gente pode sentir, perceber, ouvir o que for, e às vezes até ver mais coisas que precisam de atenção do que o paciente, mas é sempre ele que vai discernir o que ele quer ver, com o direito de usufruir da liberdade de manter algumas questões intactas - por mais que a gente queira meter o dedo lá.

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Ser terapeuta é como ajudar uma pessoa que está com as mãos amarradas a construir um castelo de areia.

Você pode ajudá-la a sentir-se capaz, a acreditar que merece usar as mãos, a criar um método para se desamarrar... Mas se ela decidir arrastar a cara na areia para fazer montinhos, não nos cabe apontar o dedo.
No máximo, perguntar porque ela escolheu estar com a cara à milanesa.

Ainda assim, no fim do dia, ela vai ter construído alguma coisa.

Se a gente teve alguma coisa a ver com essa conquista ou não, nem sempre dá pra saber - mas já dá pra ficar contente.

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