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Pegadinhas

Domingo à tarde.
Eu estava sentado no parque, de pés descalços, olhando pro horizonte e tentando tirar uma selfie que preste.

Um garoto caminha e fica em pé, parado, atrás de mim. 
Tem uns 18 anos, tênis de marca, todo arrumadinho na moda. Tira o telefone do bolso e começa a falar bem alto:
"Tô do lado de um menino com cara de baitola! Isso, vem rápido."

Prestei atenção.
"É, de bermuda preta. Listrada. Camiseta branca. Cara de baitola."

Olhei pra baixo pra ver se eu estava vestindo isso mesmo. Estava.
A cara de baitola eu não tinha como conferir, mas provavelmente estava usando também.

Ele estava falando de mim.  

--

Tentei decidir rápido. 
Ficar parado? Enfrentar o menino? Ir embora? Ele continuou falando:
"Um com bastante cara de baitola. Vem rápido."

Gato escaldado é foda. Depois da minha adolescência, de precisar sair correndo de gente me chamando de viado dezenas de vezes, eu resolvi zarpar.
"Ele tá colocando a meia. Corre aqui."

Eu tentando demonstrar calma.
"Tá botando o tênis. Vem logo."

Botei o tênis, fiz cara de tranquilo e tentei sair devagar.

O moço veio correndo atrás de mim:
"Moço, calma! Moço! Espera aí!"

Olhei pra ele. Ele abriu um sorriso:
"É pegadinha!"

--

Vocês viram a desculpa da mulher que assassinou o irmão do Kim Jong-un?

Ela disse que foi contratada como atriz, pra fazer uma pegadinha. Ela teria que abordar homens e atirar água na cara deles. Coisa engraçadíssima, né?

Ela já tinha feito isso quatro vezes quando mostraram o irmão do Kim pra ela e falarem que esse era a próxima vítima.

Vítima de verdade, porque dessa vez o frasquinho de água tinha veneno.

Quem caiu na pegadinha foi ela.

--

Depois da pegadinha, eu fiquei pelo menos uns três minutos tremendo. A adrenalina que uma sensação de perigo provoca é uma merda.

O menino era carismático mesmo, sorrisão enorme, boa pinta. Puxou papo comigo:
"E aí, como é que foi? Você ficou nervoso?"

Eu respondi:
"Olha, não é a situação mais confortável do mundo, ainda mais pra quem é baitola mesmo."

Ele parou por um segundo.
"É, pra eles deve ser ruim mesmo...". Meu Deus, que anta. "Você deixa eu usar sua imagem?"

Deixei. Nunca fui de esconder meus constrangimentos. 

Ele me entregou um cartão de visita do canal no Youtube (achei engraçado, uma mídia tão moderna divulgada pelo método mais antigo do mundo) e foi embora.

--

Chegando em casa, fui conferir os outros vídeos dele.
Nada muito incrível. Tinha um vídeo dele chegando no açougue e perguntando se dez quilos de carne "Dá pra 20 comer?".

Tinha um chamado "Apagando pessoas na rua" 
Nesse ele seguia pessoas numa rua deserta falando "não é pra passar aqui, vou te apagar!" e depois saía correndo atrás da pessoa com um apagador na mão. 

Péssimo, mas eu ri de verdade.

--

Ser vítima de uma pegadinha é um exercício de perdão (a não ser no caso do irmão do Kim Jong-un, que foi um exercício em desencarne mesmo).

Perdoar o outro por ter feito você passar por um momento de pânico, por ter um humor tão raso e besta. perdoar a si mesmo por ter caído numa brincadeira tão óbvia, perdoar quem quer que tenha feito a situação original que se repetiu ali tão traumática.

Mas até que ponto você pode falar "Pegadinha!" depois de fazer algo ruim com alguém e apagar os efeitos negativos causados por aquilo?
Até que ponto a graça vale a pena?

Porque se depois que você pegar a pessoa, ela te pegar também, e com raiva... Não dá pra reclamar muito, não.

--

O menino da pegadinha agora está no porta-malas do meu carro.
Daqui a um ou dois dias, eu vou falar "Agora é só jogar pros rotweillers!" e abrir a porta.

Pegadinha! 
Vão ser pitbulls.

Tá, essa última parte não é verdade. Eu nem tenho carro. 
Mas que me faria rir bastante, faria. 

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