Pular para o conteúdo principal

Únicos

A maior prova da falta de humildade do ser humano é que a gente sempre acredita que é o primeiro a passar pelas mudanças que passa.  Não importa quantos trilhões de pessoas já tenham nascido, crescido, metido e batido as botas, a gente sempre acha que nosso ponto de vista é inédito.

Com todo mundo:
O adolescente que acha que é o primeiro a perceber que precisa se rebelar contra o mundo;
O jovem adulto que acha que é o primeiro a se frustrar com os sonhos que teve;
A pessoa de meia idade que acha que é pioneira na ideia de simplificar a vida e dar uma moderada nas expectativas em busca de menos estresse;
O idoso que acha que a geração seguinte é a primeira que não tem compasso moral.

Nada de novo debaixo do Sol: nossas histórias se repetem.
O que não quer dizer que não sejam dignas de ser vividas.

--

A gente vive sob a ilusão de ser único.

Não que a gente não seja capaz de entender que o mundo é um formigueiro imenso, todo mundo com as suas frustrações. E, a bem da verdade, tentar se colocar no lugar de todo mundo que pode estar sofrendo ao mesmo tempo é uma experiência opressora.

Mas nós somos obviamente limitados: pra quem só consegue existir em um lugar por vez, só existe o lugar onde se está.

--

Quem sabe ajudasse se a gente tirasse nossos bilhões de cabeças preocupadas com seus bilhões de si-mesmos e tentasse se perceber mais como colônia do que como seres individuais.

Um grande Ser Humano, o conjunto de bilhões de pessoinhas, tentando fazer sentido como um todo, cada pequeno insight contribuindo para o mundo inteiro.

Claro: pra quem é criado para ser o melhor aluno da turma, a pessoa que mais se destaca, que encontra uma pessoa específica que seja um grande amor na sua vida... Pode ser difícil sentir-se menos importante para ganhar na escala.

Mas esse movimento pode ser fundamental para aprendermos a ser mais livres, mais generosos e - quem sabe - mais felizes.

Mais entusiasmados, por sabermos nosso papel num grande sistema.
Menos autocríticos, por sabermos que não estamos trabalhando sozinhos.

Mais capazes de aceitar que somos bem comuns, bem pequenininhos, bem iguais uns aos outros.
E, por isso mesmo, únicos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dando sopa

Às vezes me sinto a pessoa mais influenciável do mundo. Estava voltando da faculdade e tentando ler um livro enquanto o ônibus chacoalhava de lá para cá. Na história, pra demonstrar a pobreza do personagem, o autor fez questão de fazer constar que ele só come sopa, em todas as refeições. Uma das cenas descrevia com riqueza de detalhes a sopa que o rapaz comia: rala, com poucos pedaços de frango, arroz do dia anterior e algumas batatas picadinhas. A intenção era despertar piedade do personagem. O efeito foi o de me deixar morrendo de vontade de comer sopa. -- Em pleno verão, bater na porta dos vizinhos mais amigáveis perguntando se eles tinham sopa não era uma opção - e sim, se fosse inverno eu teria cara-de-pau suficiente de fazer isso.  A solução foi caminhar até um hipermercado perto de casa, o único lugar aberto naquele horário. Talvez eu achasse sopa em lata por lá. -- Pelo menos quinhentas pessoas se amontoavam na entrada do supermercado. Pessoa...

Enganei o bobo na casca do ovo

Quem disse que desenho animado não é ciência?  Bem, ninguém disse isso, mas eu me surpreendi quando fiquei sabendo que um dos meus clichês preferidos de desenho infantil tem a ver com um prêmio Nobel.  Lembra quando o Tom, do Tom e Jerry - ou qualquer outro desenho da época - via um ovo chocar e o pintinho que saía de dentro o chamava de mamãe, e o seguia por todo lugar? Isso aconteceu com um cientista chamado Konrad Lorenz, que estudava biologia, psicologia e o que mais tivesse pela frente, e que um dia, tal como o Tom, viu chocar um ovinho de ganso. Bem, o histórico de Lorenz não era muito bom (com alguns estudos voltados a descobrir se "híbridos germânico-polacos" tinham a mesma capacidade de trabalho que ditos "alemães puros", aquele nazisminho básico). Ainda assim, o ganso lhe deu uma oportunidade de ressignificar sua obra, porque assim que nasceu, começou a seguir o cientista alemão. O cientista não tinha penas, não tinha os dedos dos pés grudados (que eu saib...

Ano passado eu morri

Não posso falar do final desse ano sem mencionar como ele começou. Em 31 de dezembro do ano passado, eu e meu então companheiro organizamos uma festinha de ano novo - dessa vez mais caprichada do que nos anos anteriores, com balõezinhos, mesa arrumada e vários convidados no terraço do prédio dele. Na hora dos fogos da meia-noite, eu saí a procura dele na festa. Ele abraçava os convidados, enquanto eu esperava na fila pra brindarmos juntos. Eu sei que parece coisa pouca, mas as coisinhas poucas demonstram o estado das coisas grandes, e naquele momento eu entendi tudo: que eu não era a primeira pessoa que ele queria abraçar, que se eu puxasse pela memória já fazia muito tempo que eu não ganhava um abraço espontâneo, e que não fazia mais sentido eu estar ali. Enquanto assistia os fogos, meu primeiro pensamento de 2025 foi "eu não vou estar aqui no ano que vem". Bateu como uma certeza, um soco no ventre que me disse, nos primeiros segundos do ano, que esse seria diferente dos últ...